terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Desejos para 2011
Antes que inicie o novo ano, queremos agradecer as manifestações de conforto, carinho e solidariedade que recebemos de tantas pessoas do Brasil e do mundo.
Alicia, austríaca e uma das muitas e queridas pessoas amigas, nos escreveu desde La Paz na véspera do Natal: “Doroti nos vai acompanhar a todos nesta data querida. Sempre vou lembrar as noites de Natal com vocês, cheias do espírito da Doroti, coordenando, planejando e dando carinho, alegria e presentes a todas e a todos”.
Lembrando a nossa querida mãe e esposa Doroti, queremos compartilhar com todos a lembrança da nossa primeira refeição aqui, em nossa casa. Foram três meses de intenso trabalho de construção coordenado pelo companheiro de indigenismo Rui, da Operação Amazônia Nativa – OPAN, gaúcho de Garibaldi. Enquanto Doroti preparava o almoço, Rui e eu, Egydio, ainda carregávamos as nossas “tralhas” para dentro de casa. Nossos pequerruchos, Ajuri e Adu, que brincavam na rua, viram um flautista vindo no rumo da casa. Chamaram a mãe: “mãe vem ver!” Quando Doroti chegou, o flautista, sem pedir licença, se sentava no assoalho da varanda tocando a sua flauta. Estando a mesa posta, Doroti convidou a todos para o almoço, inclusive o flautista. Ele comeu conosco, agradeceu e se foi, sem sabermos seu nome, de onde veio e nem o seu destino. Doroti olhou para nós e profetizou: “Esta casa foi abençoada por esta visita! Aqui nunca faltará comida!”
E, de fato, até hoje nunca faltou comida, nem para nós, nem para os nossos visitantes, estagiários ou participantes de cursos!
Dorô nos mostrou a alegria da partilha. Agora desejamos a todos que neste ano possam viver muitas e muitas vezes esta alegria!
Feliz Ano Novo!
Egydio e família
PS.: Convidamos a todas e todos para a missa de um mês de falecimento do Doroti, que será celebrada na Igreja Matriz da paróquia dos Santos Mártires e N. Sra. Aparecida, Presidente Figueiredo-AM. Dia 03 de Janeiro de 2011, as 19:30 horas.
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sábado, 25 de dezembro de 2010
Doroti e o Peso
Milan Kundera
Milan Kundera, com sua leveza insustentável, problematiza a compreensão machista e maniqueísta de Parmênides e seu mundo dividido em pares opostos (luz/escuridão, peso/leveza, calor/frio, masculino/feminino), no qual atribuiu um valor negativo a feminino, peso, frio e escuridão e um valor positivo a seus antípodas.
Ao questionar este sistema, Kundera usa, por exemplo, a seguinte metáfora:
O mais pesado dos fardos nos esmaga; sob seu peso, afundamos, somos pregados ao chão. E, no entanto, na poesia amorosa de todas as épocas, a mulher anseia por sucumbir ao peso do corpo do homem. O mais pesado dos fardos é, pois, simultaneamente, uma imagem da mais intensa plenitude da vida. Quanto mais pesado o fardo, mais nossas vidas se aproximam da terra, fazendo-se tanto mais reais e verdadeiras.
Bela tentativa, Kundera, mas cremos poder oferecer exemplo mais significativo para contestar Parmênides e, por isso, neste momento, nós o desafiamos!! Apresentamos a você (ainda que post mortem) e aos leitores, a história da incrível Doroti Schwade.
Doroti Schwade, mulher. Mulher agricultora. Mulher agricultora, mãe de cinco filhos. Militante mulher mãe agricultora forte. Forte Doroti, doce Doroti.
Peso,
fardo, ombros, braços.
Doçura. Doce Doroti. Doce fardo. Doces filhos. Doroti criou seus filhos.Grandesfilhos! Doou-se. Adocicou-os.
Doçura? Amor? Amor de Doroti? Egydio. Mel. Mas... Egídio... o Padre Egydio?
Sim... não... Bem... Doroti não tornou-se a mula-sem-cabeça. Doroti tinha uma cabeça (e que cabeça!!).
E nesta cabeça fervilhavam filhos, militância, família, igreja, mel, terra.Doroti fervilhava. Doroti amava. Amor intenso. Taquicardia. Pressão alta.Dorotirefletiu sobre o mundo, o mundo inteiro não coube em sua cabeça.Doroti amou sua família.
Sua família eram os Waimiri-Atroari, mas também os índios de outras etnias.Etambém brancos, negros, amarelos. Sua família era a humanidade.Doroti sabia o peso da responsabilidade. E no dia 2 de dezembro de 2010,Dorotiexplodiu de amor pela humanidade. E como Kundera, sabia que o peso era positivo.Sabia que entraria em comunhão com Deus.Desejou que sua partida fosse alegre.E, por ela, pela beleza de sua trajetória, todos se alegraram em sua despedida.
Dos amigos
Welton Oda e Mônica Colares
10 de dezembro de 2010
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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Dorô, A Menina que Virou Flor, Roça, Pomar, Amor
Naquele Tempo vivia uma menina. Sempre que encontrava as pessoas ela perguntava se elas estavam bem e se estavam cuidando das outras e da natureza, mas as pessoas quase nunca respondiam e só assobiavam.
- Vocês estão cuidando das crianças?
- Fi...
- Vocês estão cuidando das pessoas de quem foi tirado o direito a vida digna?
- Fi...
- Vocês estão respeitando as pessoas que tem cultura diferente?
- Fi...
Cada dia a história se repetia:
- Vocês estão cuidando das águas?
- Fi...
- Vocês estão cuidando dos bichinhos?
- Fi...
- Vocês estão cuidando das florestas?
- Fi...
- O que vocês fizeram para que o reino de Deus floresça sobre a Terra?
- Fi...
Era sempre assim: a menina perguntava e as pessoas só assobiavam. Ela não gostava que as pessoas só assobiassem, ficou triste, zangou e disse para seus amigos:
- Amigos, vamos andar por aí? Eu queria ficar perto da natureza.
- Então vamos, menina.
A menina arranjou umas ferramentas e os amigos saíram com ela por um trilho na mata. Chegaram a um acampamento. Ali a menina sentou-se e disse:
- Amigos, olhe que lugar bonito, limpo e perto do mato! Vou ficar por aqui, vocês me enterrem aqui!
- Mas por que você fala assim? Perguntaram os amigos.
- Vocês não viram? Já esqueceram? Sempre que encontro as pessoas e eu pergunto se fizeram alguma coisa para construir uma terra sem males, de mais respeito entre a humanidade e com a natureza, eles só assobiavam para mim e eu fiquei triste. Vocês podem me enterrar, mas não pensem que eu vou morrer.
- Não vamos fazer isso com você! Vamos andando! Disseram os amigos.
Chegaram a outro acampamento. A menina sentou e disse de novo:
- Aqui vocês não vão deixar de me enterrar!
- Vamos voltar para casa, menina, e assar peixe para comer.
- Não amigos, cavem só um buraquinho, assim, raso e redondo, me deitem dentro, e me enterrem até o pescoço e eu vou ficar aqui mesmo!....
- Mas menininha!...
- Se vocês não me enterrarem pode ser que eu não possa mais contribuir para construir a terra sem males. As pessoas só assobiavam para mim!
- Os amigos enterraram a menininha do jeito que ela queria e começaram a chorar. Era de dia e a menina disse:
- Amiginhos, não chorem! Vou morar aqui e só morro se vocês esquecerem-se de mim, não me atenderem e cuidarem de mim no tempo certo, não me semearem e cultivarem. Vocês preparem a terra, as ferramentas, esteiras de folha de buriti e recolham as sementes. E falem para as pessoas prepararem cestas, paneiros, panelas, ralos e tachos. Daqui a uns dias, quando vocês e as pessoas tiverem aprontado tudo isso, vocês venham aqui com eles e tragam paneiros e cestas. Agora vocês podem voltar para casa, amigos, mas, quando chegarem lá, não é para brigarem com as pessoas. E mais uma coisa: andem depressa e não olhem para trás.
Os amigos não estavam entendendo nada daquilo e saíram caminhando ligeiro. Quando iam lá longe, veio uma grande tempestade fazendo um barulhão: wãh... wãh... Nessa hora, ouviram também uns cantos da menina e toques de diversos instrumentos: wãh...wãh...uñ...uñ...uñ...o...o...o...huñ...huñ...huñ... e outros cantos. Foram os primeiros cantos de uma nova esperança.
Quando os amigos chegaram a casa, as pessoas não estavam, mas logo chegaram e perguntaram para os amigos:
- A menina?!... Cadê a menina?
Os amigos não responderam nada: estavam zangados com as pessoas.
- Onde está a nossa menina? Perguntaram as pessoas de novo.
- Vocês nunca respondiam nada para nossa menina, quando ela perguntava pelas criancinhas, pelos doentes, pelos desfavorecidos e pela natureza; e vocês só assobiavam... Já se esqueceram disto? Ela ficou muito triste e nos pediu para enterrar-la lá no mato. Depois que nós a enterramos ela disse: - Agora vocês vão embora, andando depressa, e não olhem para trás. Quando nós vínhamos vindo deu uma grande tempestade no mato, balançando as árvores, fazendo um barulhão assim: wãh...wãh...uñ...uñ...uñ...o...o...o...huñ...huñ...huñ..., no lugar onde nós enterramos a nossa menininha. Tudo isso nós ouvimos.
As pessoas choraram de tristeza e disseram:
- Mas como vocês fizeram isso?! A gente só tinha essa menininha!
E os amigos disseram:
- E ela mandou dizer para vocês fazerem paneiro, ralo, e arranjarem tachos e panelas e, quando tiver tudo pronto, é para vocês irem lá conosco.
Juntos então aprontaram tudo e foram ao lugar onde os amigos enterraram a menina, levando paneiros e cestas. No trilhozinho da mata viram onde a menininha antes brincava, apanhava cará, cortava a capoeira e plantava. E choraram de saudade, mas continuaram andando.
Quando estavam perto de onde fora enterrada a menina, viram uma clareira na mata e os amigos disseram:
- No lugar dessa clareira era mato, quando eu vim aqui naquele dia. Como é que é isso?
Chegaram à beira da clareira e viram uma floresta de alimentos com tudo que era plantação, de flores, de frutas, de tubérculos, milho e tudo mais. Os amigos então disseram:
- Nossa menininha não está aqui, mas foi dela que nasceu esta floresta de alimentos. Agora é que estamos entendendo o que ela falou: - Eu só morro se vocês se esquecerem de mim, não me atenderem e cuidarem de mim no tempo certo, me semearem e me cultivarem...
Dos braços da menina nasceram mandioca e macacheira; dos dedos, ararutas e ariás; das unhas, amendoim; da cabeça, castanha e abiu; dos seios, amapá, sorva e coco; da costela, feijões pretos, rajados e de outros tons, quiabo e ingás; do coração taioba; das pernas, jatobá, cedro, e vários tipos de madeira; do fígado os carás; do pâncreas, andiroba; das vértebras, tucumã, açaí e pupunha; dos intestinos, batatas-doce, mamão, goiaba e maracujá; do dente, milho; das roturas, cabaças e cuias; da língua e das orelhas, plantas medicinais; da saliva, copaíba; dos olhos, flores azuis; dos cabelos, flores brancas e amarelas; do sangue, flores vermelhas e urucum; e assim por diante, uma infinidade de cores e sabores brotaram da terra.
Estava tudo no ponto de colher. Encheram os paneiros e cestas e levaram para alimentar todos com abundancia e mesa farta.
Maurício Adu Schwade.
sábado, 18 de dezembro de 2010
Último domingo Contemplando o horizonte
Já nos encontrou sorridente, um por um dando boa chegada.
Olhei para ela sem maldade, só por intuição. Ela com os olhos brilhando por termos ido naquele domingo.
-Vão entrando e podem tomar café, já vou lá. Estou cuidando da minha netinha, disse olhando para a bebezinha.
Fomos direto ao local de refeição, onde os meninos estavam conversando, juntamente com o Egydio.
Passamos a manhã e o almoço e um pouco da tarde indo e voltando, como se fôssemos formigas, em todo o local da residência de Dorô Schwade. Uma hora estávamos na cozinha, outra na sala, em outra no quintal. No Almoço, todos serviram-se; ela, como sempre, a última a se servir, mas almoçou bem. Depois, cada um foi para o seu cantinho. Ela foi com o Egydio tirar a soneca da sesta após o almoço.
Na hora do jogo da penúltima rodada do campeonato brasileiro de futebol, os homens correram para a sala, juntamente com algumas mulheres. Ela ficou da sala para a cozinha, depois para o quarto, depois para o corredor, depois para a varanda.
Após a palestra, ela ficou sozinha na varanda, foi quando duas mulheres da turma do Ifam foram até ela perguntar sobre a sua vida. Ela estava olhando para o horizonte; quando ouviu a voz de uma das mulheres, voltou-se para elas e disse que tinha percorrido os rios Purus, Madeira, Juruá e Mato Grosso, passando por Rondônia. Foi para o Acre fazer contato com o índios daquele Estado. Sempre dizendo: “desculpem-me porque estou com a minha memória fraca, mas o compadre pode me ajudar”. Fiquei assustado e balancei com a cabeça em sinal de positivo. À medida em que ia dizendo sobre sua vida em contato com as nações de índios do Norte do Brasil, as duas mulheres iam ficando como se estivessem ouvindo uma melodia, mas que era real. Em alguns instantes, ela perguntava de mim sobre determinada nação de índios, e eu atordoado, mas lembrava: “os yanomami”, ao passo que ela confirmava: “sim, sim”. Uma das mulheres interrompeu a narração e disse: “eu sou do Acre e ouvi falarem muito da senhora por lá”, ao passo que ela confirmou dizendo que realmente já havia tido por lá, fazendo contato com os irmãos índios. Sem querer mais atrapalhar, saí para a sala onde o pessoal estava assistindo ao jogo. Depois, chegaram mais pessoas da turma do Ifam, acabando então de falar a Dorô.
E nós continuávamos assistindo ao jogo. “Dois por ele e todos contra ele: quem? O Mengo!” Ela sempre passando pela sala, onde estávamos. Foi atender a um telefonema de uma amiga da família que lhe disse o número do telefone, ao passo que pediu ao Luizinho que anotasse o número. Ela voltou para a varanda, onde foi contemplar o horizonte.
Deu-me um estalo, então, fui até a varanda, e percebi ela sentada na cadeira de balanço de macarrão. Ela estava contemplando, fixa para a frente. Não estava contemplando a sarjeta, não estava contemplando o meio-fio, não estava contemplando o asfalto, não estava contemplando o formato da entrada de Presidente Figueiredo, não estava contemplando a passagem dos veículos, muito menos a passagem das carretas e dos ônibus. Ela estava contemplando o horizonte: a árvore de seu jardim, as matas do morro que fica em frente da varanda, o céu azul e as nuvens passando por cima das matas do morro. Eu sentado em outra cadeira, fiquei a olhar sem maldade, só refletindo também. Tentei conversar com ela, mas ela estava tão contemplativa que só confirmava o que eu falava, que também não poderia ser importante naquele momento. Um grito: “gooooool!”, fui ver de quem. Foi quando ela foi até a cozinha, pegou um prato, uma colher e pegou sua janta, levou até a varanda, sentou na cadeira de balanço de macarrão e começou a degustar o alimento.
O estalo voltou e fui até a varanda novamente. Quando cheguei, ela já foi dizendo: “agora estou jantando mais cedo”, e eu fiz sinal afirmativo com a cabeça para frente. E ela ainda sempre com o olhar contemplativo para o horizonte.
Acabou o jogo, nos despedimos e partimos.
Ela, na despedida, não nos veio despedir-se, como sempre fazia, estava no quarto, descansando.
Manaus, 14 de dezembro de 2010, 20h38.
Mílton Viana de Lima
Intense, passionate and radical embrace of the indigenous cause (in memoriam Doroti Müller Schwade)
Cimi North Regional I
Doroti died on December 3, victim of a stroke. Her funeral on Sunday the 5th in the town of Presidente Figueiredo, was accompanied by family, friends and the local community.
Determination
From Blumenau in the state of Santa Catarina, she left home, in the 1970s, to be an OPAN volunteer (Operation Anchieta, today Operation Native Amazon) and member of the Indigenous Missionary Council (CIMI). Her embrace of the indigenous cause and the Amazon was intense, passionate and radical. She was initially called to conduct a survey of the indigenous people in Western Amazonia, Acre and Southern Amazonas. It was the first step for the indigenous people of this region, then known as mestizos, to begin to organize themselves to sever the relations of exploitation in the rubber plantations and the struggle for the demarcation of their lands. To provide support for the work of supporting the indigenous struggle of the region, she helped to create the CIMI regional office of the Western Amazon, and was then chosen to be the coordinator.
Some facts illustrate Doroti’s determination in what she was proposing to do. Arriving in Labrea, a small town situated on the Purus river in Amazonas, in 1977, she appeared in the Prelature to inform the local church about a survey that she intended to carry out in that region. Frei Jesus, now bishop of Labrea, realizing that she was going to walk alone down the rivers and byways, tried in every way to dissuade her from the idea, warning of the dangers of the forest. Realizing that she would not desist, the only alternative that remained was to hurriedly pack his bag and accompany her.
Provocative
I had the opportunity to live in the team with Doroti and Marta (an Italian volunteer) in 1978, shortly after I arrived in the Amazon. The team served with the Jarawara, Paumari and Jamamadi people. The support house, built on stilts like the other houses to remain above the seasonal flooding of the Purus river, was located in the rubber center known as Estação, a day trip from Labrea. Living in daily contact called attention to the consistency of Doroti to the cause of the poor and indigenous people whom she embraced and her concern for the people around her. She provoked constant assessments by the team so that everyone lived as closely as possible to the same conditions as the indigenous peoples and rubber tappers. When we walked [among the beached fishing boats]in the varadouros, she walked a little slower, proposing to be last, so as not to hasten the pace to reach us and thus would not affect the rhythm of walking.
Massacre
In 1979 Doroti married Egydio Schwade, then Executive Secretary of CIMI. Subsequently the couple settled in Itacoatiara, AM, the Prelature of Don Jorge Maskell, with the objective of working together with the Waimiri-Atroari people, and in 1984 moved to Presidente Figueiredo, AM. While seeking to create conditions for a more permanent presence in the indigenous communities, they participated in the construction of the Ecclesial Base Communities (CEBs) and were tirelessly devoted to combating the major economic development projects that were decreeing the death of the Waimiri Atroari people. In addition to construction of federal highway BR-174, which from 1968 to 1973 was massacring the Waimiri people (estimated from Funai population data of this period, approximately 2,000 indigenous people were killed), the construction of the Balbina hydroelectric dam and Taboca Mining of the Paranapanema Group directly impacted lands of this people directly who were reduced to fewer than 350 people.
Expelled
When they could, with the end of the military dictatorship in 1985, they began to speak openly with indigenous communities, Doroti and Egydio were immediately challenged by the Waimiri Atroari to initiate a literacy process. Not speaking the Waimiri Atroari language, they made the "school" a place of mutual learning and where literacy could include the indigenous language. The school, conceived as a space of freedom, using drawing as a teaching resource, gradually casting light on the recent history of violence against the Waimiri Atroari people. Drawings showing planes flying over the villages and indigenous dead on the ground during the construction of the BR-174 presented a history that inconvenienced many people. Nor was there interest in [their conveying] indigenous reports about mining on their lands. Thus, in 1986 the couple was expelled from the indigenous area by the FUNAI, whose policy was still strongly influenced by remnants of the military dictatorship.
Diversity and abundance
Prevented from returning to the Indigenous land, they had more time to spread this new idea that came from their Christian convictions of faith, their political activism and of learning from the indigenous people - caring for the earth and the creatures to be happy - without exploitation, accumulation and domination. And the best way they found to spread this idea was to show that it was not just a dream, but that it could be achieved. The children Ajuri, Adu, Maiá, Maiká and Luiz were raised living this experience.
The many testimonies given by people from the local community and friends during the celebrations preceding her funeral highlighted how they felt welcomed by Dorothy, as much upon arriving at her home as in departure. That her home had been transformed into a reference site, where people always met from distant places in search of new paths.
Doroti, though coming from the city, but with the conviction shared by all her family that the "living well" arose from diversity and abundance of foods, she devoted herself to restoration of the soil, planting and care for plants. In this way, her house might be transformed into a place of encounter, acceptance, fellowship, of abundance, joy, celebration and a true school of life.
That the radicalism of Doroti, in her choice for life, can inspire and encourage us all in the struggle for justice and in the care of the earth.
Fonte:http://www.cimi.org.br/?system=news&action=read&id=5197&eid=340
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Um pouco da memória da vida de Doroti Müller Schwade*
Por Guenter Francisco Loebens
Doroti faleceu no dia 3 de
dezembro, vítima de derrame cerebral. Seu enterro neste domingo, no município de Presidente Figueiredo, foi acompanhado pelos familiares, amigos e pela comunidade local. Catarinense de Blumenau, saiu de casa, na década de 1970, para ser voluntária da OPAN (Operação Anchieta, hoje Operação Amazônia Nativa) e integrante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Abraçou a causa indígena e a Amazônia de forma intensa, apaixonada e radical. Inicialmente foi convocada para fazer o levantamento dos povos indígenas na Amazônia Ocidental, no Acre e sul do Amazonas. Foi o primeiro passo para que os indígenas dessa região, então conhecidos como caboclos, começassem a se articular para romper com as relações de exploração nos seringais e a lutar pela demarcação de suas terras. Para dar suporte ao trabalho de apoio às lutas indígenas dessa região, ajudou a criar o regional Amazônia Ocidental do Cimi, sendo escolhida para ser a coordenadora.
Alguns fatos ilustram a determinação de Doroti naquilo que se propunha fazer. Chegando em Lábrea, pequena cidade situada à beira do rio Purus, no Amazonas, no ano de 1977, apresentou-se na Prelazia para informar a igreja local sobre o levantamento que pretendia fazer naquela região. Frei Jesus, hoje bispo de Lábrea, percebendo que ela iria andar sozinha pelos rios e varadouros tentou de todas as formas demovê-la da idéia, alertando para os perigos da mata. Percebendo que ela não desistiria, a única alternativa que lhe restou foi arrumar sua mochila às pressas para acompanhá-la.
Tive a oportunidade de conviver em equipe com Doroti e Marta (uma voluntária italiana) em 1978, tão logo cheguei à Amazônia. A atuação da equipe se dava com os povos Jarawara, Paumari e Jamamadi. A casa de apoio, erguida sobre palafitas como as demais casas para superar as enchentes sazonais do rio Purus, ficava localizada na colocação de seringueiros conhecida como Estação, um dia de viagem acima de Lábrea. Na convivência diária chamava atenção a coerência de Doroti com a causa dos pobres e dos índios que abraçara e sua preocupação com as pessoas a sua volta. Provocava avaliações constantes na equipe para que todos vivêssemos o mais proximamente possível nas mesmas condições em que viviam os indígenas e seringueiros. Quando andávamos nos varadouros, como ela caminhava um pouco mais devagar, propunha ficar por último, porque assim iria apressar o passo para nos alcançar e dessa forma não prejudicaria o ritmo da caminhada.
Em 1979 Doroti casou com Egydio Schwade, então Secretário Executivo do Cimi. Posteriormente o casal se fixou em Itacoatiara (AM), na Prelazia de Dom Jorge Maskell, com o objetivo de atuar junto
ao povo Waimiri-Atroari, e em 1984 transferiram-se para Presidente Figueiredo (AM).
Enquanto buscavam criar as condições para uma presença mais permanente nas comunidades indígenas, participaram da construção das Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) e dedicaram-se incansavelmente no combate aos grandes projetos econômicos que estavam decretando a morte do povo Waimiri Atroari. Além da BR-174, cuja construção nos anos de 1968 a 1973 foi feita massacrando o povo Waimiri (estima-se, a partir de dados populacionais da Funai, que nesse período 2 mil índios foram mortos), a construção da hidrelétrica de Balbina e a Mineração Taboca do grupo Paranapanema atingiam diretamente as terras desse povo que ficou reduzido a menos de 350 pessoas.
Quando puderam, com o fim da ditadura militar em 1985, se apresentar abertamente às comunidades indígenas, Doroti e Egydio foram imediatamente desafiados pelos Waimiri Atroari a iniciarem um processo de alfabetização. Como não falavam a língua Waimiri Atroari, fizeram da “escola” um local de aprendizado mútuo e a alfabetização pôde se dar na língua indígena. A escola, pensada como um espaço de libertação, usando como recurso pedagógico o desenho, aos poucos foi lançando luzes sobre a história recente de violência praticada contra o povo Waimiri Atroari. Desenhos mostrando aviões sobrevoando as aldeias e índios mortos pelo chão no período da construção da BR-174 era uma história que incomodava muita gente. Também não interessava que os indígenas fossem informados sobre a mineração em suas terras. Assim em 1986 o casal foi expulso da área indígena pela Funai, cuja política ainda era fortemente influenciada pelos remanescentes da ditadura militar.
Impedidos de voltar para a terra indígena, sobrava mais tempo para espalhar essa idéia nova que vinha de suas convicções cristãs de fé, de sua militância política e do aprendizado com os povos indígenas – o cuidado com a terra e com as criaturas para ser feliz - sem exploração, acumulação e dominação. E o melhor jeito que encontraram para espalhar essa idéia foi mostrar que não era só um sonho, mas que podia ser concretizada. Os filhos Ajuri, Adu, Mayá, Maiká e Luiz foram criados vivenciando essa experiência.
Os muitos depoimentos dados pelas pessoas da comunidade local e dos amigos durante as celebrações que antecederam o seu enterro destacaram como se sentiam acolhidas pela Doroti, tanto na chegada a sua casa quanto na saída. Que sua casa havia se transformado num local de referência, onde sempre encontravam pessoas de distintos lugares em busca de novos caminhos.
Doroti, mesmo oriunda da cidade, mas com a convicção comungada por toda sua família de que o “bem viver” passava pela diversidade e abundância de alimentos, dedicou-se a recuperar solos, semear e cuidar das plantas. Assim, sua casa pôde se transformar num lugar de encontro, de acolhida, de confraternização, de fartura, de alegria, de festa e numa verdadeira escola de vida.
Que a radicalidade de Doroti, na sua opção de vida, possa inspirar e encorajar a todos nós na luta pela justiça e no cuidado com a terra.
*Publicado originalmente em:
http://www.cimi.org.br/?system=news&action=read&id=5194&eid=274
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sábado, 11 de dezembro de 2010
Doroti Alice Mueller Schwade: nota da família
Queremos agradecer às inúmeras pessoas que aliviaram o nosso
sofrimento pelo falecimento súbito de Doroti, com sua ação e
acolhimento, presença e solidariedade viva manifestada de diversas
formas: de viva voz, presentes aqui na celebração do velório, missas e
enterro, via internet ou via telefone. Deus lhes retribua por tudo.
Mas, em especial, um muito obrigado a todos que entendendo a mensagem
e o desejo de Doroti transformaram o velório, as celebrações
litúrgicas e o próprio enterro em alegria, como era desejo ardente de
nossa querida mãe e esposa.
Queremos também adiantar os sentimentos da celebração do domingo
próximo que é denominado de domingo da alegria. Com São Paulo lhes
dizemos: “Alegrai-vos, e de novo lhes digo alegrai-vos. O Senhor está
próximo!”
Com o nosso carinhoso abraço,
Egydio, Ajuri-Andrea-Beatriz, Adu, Mayá-Ricardo-Ana Cristina,
Maiká-Michéli e Luiz Augusto.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Frutapão
Se foi Doroti Schwade.
Menina com pensamento de solidariedade para com os menos favorecidos. Adolescente que viu na igreja católica a possibilidade de ajudar aos que precisam.
Ingressou no CIMI e através dele começou a ajudar aos povos que precisam: os índios deste país: da Região Norte e de Região Central.
Fez contato com diversos irmãos índios dos rios Juruá e Purus. Foi para o Acre levar a solidariedade aos companheiros índios daquele Estado. Na região do Itacoatiara e em seu entorno, levou palavras e ação de conscientização, luta, solidariedade aos diversos irmãos indígenas da região e aos agricultores das comunidades daquela localidade.
Foi então para Presidente Figueiredo juntamente com seu esposo e companheiro Egydio e seus filhos.
Fixou-se em Presidente Figueiredo. Agora, levando a arte de criação de abelhas, a arte de uma nova agricultura familiar e de subsistência às diversas nações indígenas da Região Norte, assim como aos agricultores do município e de outras localidades.
Sempre preocupada com os que precisam, Doroti fazia própolis em pequenos frascos para as pessoas de pequeno ou quase ou sem nenhum poder aquisitivo e elas adquiriam o remédio milagroso popular.
Levou a diversos agricultores a boa nova de cultura agrícola de subsistência: a agricultura da mesa farta familiar, onde as famílias agricultoras plantavam e colhiam para comer primeiramente, e o excedente podia ser comercializado.
Povos indígenas da Venezuela, da Raposa Serra do Sol e dos Waimiriatroari e tantos outros da Região Norte sempre têm o norte de Doroti e Egydio para vivenciar a luta, a solidariedade e a fraternidade. Assim, era a solidária Doroti. Fez o seu último pão-de-frutapão e deu ao seu esposo e companheiro de luta e de solidariedade e pai de seus 5 filhos, Egydio, para provar e saborear mais uma delícia de alimento com frutos de seu quintal:
- Prova, pai, o que fiz para a nossa mesa farta!
- Pão muito gostoso, Dorô!, disse Egydio.
Noite Feliz