2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos Durante a Ditadura Militar

Que vivam os Povos Indígenas do Brasil! Que vivam Bem!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Barragem no Tietê: Esperança aos Paulistanos

No dia 27 de janeiro de 2011 a mídia nacional divulgou a seguinte notícia: “Pesquisa indica que 51% dos paulistanos querem se mudar de São Paulo e o fariam se pudessem” (O Estado de São Paulo). Demonstração óbvia de uma trágica tendência: os paulistanos não crêem mais no futuro de sua cidade. Chegando a São Paulo de avião nos defrontamos com uma enorme chaga na mãe-terra. Quem assiste noticiários de TV ou Rádio, ou navega pela internet, testemunha que qualquer chuva forte faz São Paulo atolar na merda, transformando muitos irmãos paulistanos na constrangedora situação de escaravelhos. E a cada ano que passa o fenômeno vem se repetindo com mais freqüência. Entretanto, para os Governos e para boa parte da sociedade urbana iludida e alienada, aquilo é a “locomotiva” do Brasil. Mas, a maioria dos paulistanos, principalmente os pobres, encara, a triste realidade, profetizando o fim próximo da “locomotiva”. Não vê ali futuro para si e seus filhos.
Infelizmente, o Governo não vai de encontro a esta realidade angustiante de quem procura um futuro de esperança. Prefere levar outros povos e comunidades que vivem felizes, com um futuro lindo diante de si, ao mesmo desespero dos paulistanos. Veja o que fez com os Waimiri-Atroari (Kiña), na BR-174, Manaus – Boa Vista por causa do minério e da Hidrelétrica de Balbina; com o povo Parakanã/PA por causa da Hidrelétrica de Tucuruí; com a “Ilha da Viúva” dos índios Tuxá de Rodelas na Bahia que era um verdadeiro sonho de esperança para toda a humanidade (provavelmente foi ali que Antonio Conselheiro se inspirou para criar Canudos), onde a Hidrelétrica de Petrolina acabou com este refúgio de felicidade. A mesma ditadura, com seus grandes projetos “irreversíveis”, ameaça hoje o futuro feliz dos Kaiapó, com Belo Monte; de comunidades rurais e indígenas de Rondônia e da Bolívia, com Girau e Santo Antônio/RO; dos Enawene Nauê e Pareci, com as PCHs do Alto Juruena/MT; e com o futuro de milhares de agricultores dos vales dos rios Uruguai e Chapecó, maiores produtores de alimentos do país com uma série de hidrelétricas. Rouba-se o futuro independente e feliz para substituí-lo pela dependência do Estado através de bolsas de alimentos, produzidos à base de perigosos agrotóxicos e transgênicos.
Por tudo isso e para ir de encontro a angústia da maioria consciente dos paulistanos, propomos a seguinte questão: por que não promovemos a construção de uma grande barragem no Rio Tietê, logo na saída da cidade de São Paulo, barragem que inunde de preferência toda a “locomotiva”, aniquiladora do futuro de seus filhos? Assim, de imediato, o Governo, sempre pronto em alimentar a “leseira” urbana com ilusões de cimento e asfalto, terá recursos para fazer a Reforma Agrária nos latifúndios que se estendem de São Paulo à Amazônia, também eles destruidores da esperança, enquanto aniquilam a biodiversidade, envenenam a terra com agrotóxicos e transgênicos. Vamos implantar ali uma Reforma Agrária, como foi o nosso sonho petista até 2003.
Assim, se abrirá um horizonte cheio de esperança aos paulistanos atingidos pela barragem do Tietê. Seu futuro se iluminará com a luz da independência e da abundância. E a “locomotiva” definitivamente atolada na lama, também voltará a produzir frutos de esperança, encorajando as mentes para a tomada de decisões em favor da vida no planeta, ansioso por novos paradigmas de organização. As águas do Tietê, hoje devoradoras de gente, descerão a Serra do Mar, amigas, aterrando o asfalto e o cimento com a lama da fertilidade. Sementes brotarão recobrindo edifícios e arranha-céus de cipós. Plantas variadas e árvores cheias de frutos, devolverão a biodiversidade e a abundância ao vale do Tietê para alimentar a festa do povo. Assim, os paulistanos, hoje sufocados por água, lama e fezes, e iludidos pelos homens de Estado, verão os seus filhos, netos e gerações intermináveis, voltarem para sua casa com paneiros cheios de felicidade.
Paulistanas e paulistanos, brasileiras e brasileiros vamos às ruas, estradas e rios, exigir que o orçamento da “locomotiva”, os 30 bilhões de Belo Monte e os 110 bilhões destinados ao agronegócio sejam transferidos para a Reforma Agrária e atendendo prioritariamente os paulistanos atingidos pela barragem do Tietê.

Casa da Cultura do Urubuí, 27 de fevereiro de 2011
Egydio Schwade
Dedico esta proposta à memória de Doroti, minha querida companheira de 32 anos, falecida em 03 de dezembro de 2010, que sempre sonhou com a Reforma Agrária e que teve a ousadia de abandonar o núcleo comercial de Blumenau/SC para se transformar em indigenista e agricultora apaixonada na Amazônia. Por isso, mereceu, por ocasião da missa de 7ºDia, dos acadêmicos de 11 entidades, esta homenagem póstuma: “Agradecemos à Doroti por nos nortear e semear vida! Dos amigos e amigas acadêmicos que tanto aprenderam com sua sabedoria tradicional. Embrapa, INPA, UFAM, IFAM, IDAM, INCRA, UEA, REATA, Fórum Amazonense de Agroecologia, Associação Brasileira de Agroecologia, Sociedade Brasileira de Sistemas Agroflorestais.” Enquanto distribuíam sementes o povo cantou: “Põe a semente na terra e não será em vão, não te preocupe a colheita, plantas para o irmão”.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Vida e Histórias de Doroti Schwade: Texto 3

Texto de Doroti Alice Müller Schwade de março de 1986 para a 1ª.Conferencia Nacional de Saúde Indígena.

Proteção à Saúde do Índio

A História das Américas e o Brasil não é exceção, é uma História de saques de depredação, de “veias abertas”. As vitimas primeiras e maiores: os povos indígenas. E o que tem isto a ver com a saúde dos povos indígenas?
Tudo.
A saúde deixa de existir quando há desestruturação social, desequilíbrio ecológico, agressão ao “habitat”, tudo isto acrescido à contaminação por vírus, bactérias, fungos e parasitas, os mais diversos, desconhecidos, até então, pelos povos indígenas. Podemos citar como exemplos: as viroses variadas, as pneumonias, a malária, as diarréias, a verminose, a hanseníase, etc.
Este quadro é agravado pela falta de conhecimento, por parte das comunidades indígenas dos mecanismos de transmissão, tratamento e cura das supra-citadas doenças, pelo fato delas serem desconhecidas desses povos.
Por isto, as epidemias foram e são ao longo destes séculos de invasões, uma das mais eficazes formas de depopulação e genocídio indígena. (A absoluta maioria dos óbitos nas comunidades indígenas, ao longo das últimas décadas, foram provocadas por epidemias). Essa depopulação provoca como as demais formas de agressão sofridas pelos povos indígenas, um sentimento de desamparo, levando-os facilmente à redução, sedução e finalmente à rendição.
No caso da saúde, a sedução se dá pela “mágica” dos remédios alopáticos e todo o sistema da medicina institucional, onde o paciente é de um modo geral o ignorante das causas e dos efeitos.
Se, de um lado, este sistema cura a maioria das doenças, por outro, não devolve a saúde plena a estas comunidades. Ao contrario, em vista do acima exposto, os tornam cada vez mais dependentes. E, existe doença pior do que esta? Infelizmente sim! Ao longo da Historia e atualmente, foi freqüente o abandono, nas horas mais cruciais, quando comunidades inteiras, atingidas por epidemias eram dizimadas sendo perfeitamente possível aplicar medidas de saúde preventiva.
Tomamos a liberdade de referir o caso da aldeia, onde atualmente moramos como um caso típico. Trata-se da aldeia Yawará, localizada próximo à BR-174, no Sul de Roraima. Em abril de 1981, crianças dessa aldeia, bem sadias, foram exibidas como mais uma “novidade” da Zona Franca de Manaus por funcionários do único órgão legalmente responsável pela vida e saúde dos povos indígenas brasileiros. Depois desta exibição estourou na Reserva Waimiri-Atroari uma epidemia de sarampo, que vitimou somente na aldeia Yawará dos Atroari 21 pessoas entre adultos e crianças. Durante a epidemia, os atendentes de enfermagem do órgão tutor local, ficaram sem recursos para prestar assistência aos índio, o que colaborou no desastre. Para um povo, como os Waimiri-Atroari, já reduzidos ao extremo por meio de uma guerra de extermínio recente, na qual o inimigo se valeu de recursos, armas e toda uma estratégia bélica desiguais, pode-se imaginar o desânimo que a nova situação tenha provocado no meio das comunidades.
Mas a tragédia ainda não chegou ao fim. Só no eixo da BR-174, incluindo uma aldeia do Alto Alalaú, morreram nos cinco (5) meses passados, seis (6) pessoas, em sua maioria crianças. A questão se torna ainda mais angustiante em se tratando de uma nação que há uma década e meia se constituía de aproximadamente 3.000 pessoas e hoje se vê reduzida a menos de 400. Agora se vêem cercados e insistentemente fustigados por governos, projetos empresariais que alegando serem suas terras “nichos ou espaços ecológicos vazios”, acabam por ocupar e depredar o que ainda lhes resta. É claro que tudo isto, acrescido ao alto índice de mortalidade, tem um efeito devastador sobre os mecanismos de resistência destes povos. É evidente, tal situação não acontece por acaso.
Trata-se apenas de um exemplo, ocorrido, nos dias atuais, praticamente nos subúrbios de Manaus. O que se constata não só por este exemplo, mas por muitos outros, como o dos Beiço-de-Pau, Krenhakarore, Cinta-Larga, no Mato Grosso, dos Suruí e Urueu-Au-Au de Rondônia, dos Avá-Canoeiro de Goiás e dos Parakanã e Arara do Pará, todos eles tendo sofrido durante a curta história da FUNAI – Fundação Nacional do Índio, uma mortalidade que medeia os 75 a 95% de sua população. O que se constata por todos esses exemplos é que uma política anti-saúde indígena vem sendo posta em prática contra esses povos em nosso país.

Concluindo
Para restabelecer o equilíbrio vital para estes povos, é preciso, além de um tratamento responsável e eficaz das doenças trazidas pela “civilização”, devolver-lhes o domínio de seus territórios e garantir-lhes efetivamente as terras que atualmente ocupam. Elas são a sua fonte primeira de sobrevivência, pois lhes garantem os alimentos. É preciso impedir mediante ações enérgicas que empresas e projetos oficiais e oficiosos de pesquisa e lavra mineral, de construção de estradas e hidrelétricas, de agro-pecuárias e colonização, todos eles nefastos para a saúde e destruidores da vida dos indígenas, continuem avançando sobre as suas terras.
- É urgente que se faça uma ação preventiva de saúde, através de vacinações sistemáticas.
- É necessário que se tenha o mínimo de infra-estrutura para o atendimento de urgência e transporte eficiente para possíveis emergências.
- É preciso que na cidade de Manaus tenha instituições de saúde efetivamente sensibilizadas para receberem sem restrições casos graves quando a vida destas pessoas esteja em risco. Isto além do atendimento em hospitais mais próximos às áreas.

Doroti Alice Mueller Schwade
A fotografia que ilustra este texto foi publicada pelo Jornal A Critica na matéria intitulada “4 índios Atroari-Waimiri Passeiam pela Zona Franca” de 15 de abril de 1981.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Vida e Histórias de Doroti Schwade: Texto 2

Estamos publicando semanalmente neste blog textos, documentos e depoimentos que ajudam a lembrar e divulgar a história de Doroti. Esta semana publicamos texto escrito por Luzia Müller, irmã de Doroti, contando episódios da sua infância. Gostaríamos de convidar novamente a todos os amigos que conviveram com ela e se sintam a vontade e felizes em registrar algo, que nos enviem seus textos.Pretendemos juntar e sistematizar posteriormente todo o material que conseguirmos sobre ela, mas não como uma história morta e sim como uma história viva, que contenha as emoções, sensações e sentimentos de todos. Os textos mais apropriados para o blog também vão ser publicados neste espaço que inauguramos hoje. Vosso material pode ser enviado para egydio.schwade@gmail.com ou mauadu@gmail.com.

Alguns episódios da infância da Doroti

Algo que tenho até hoje na lembrança é a visão de nosso pai com uma malinha na mão e Doroti no colo. Era uma noite escura de inverno. Nossa irmã Regina mal havia nascido e minha irmãzinha Doroti, que tinha por volta de dois aninhos e alguns meses, estava muito doente. Nossa mãe não podia acompanhá-la ao hospital, por isso meu pai foi levá-la de ônibus até o Hospital Sta. Isabel. Lá, se descobriu que ela estava com difteria e, se não ficasse internada, poderia morrer. Nosso pai ficou com ela aquela noite e, ao amanhecer, foi trabalhar. Não lembro bem, mas pe

nso que ficou sozinha uma semana internada. Mas, como Doroti, desde a mais tenra idade, sempre reverteu as situações mais adversas, fiquei sabendo que todo o hospital estava mobilizado com aquela garotinha que conquistava a todos com o seu olhar firme e acolhedor. Todos queriam fazer o melhor pra aquela garotinha tão corajosa, apesar de tão doente e longe de qualquer membro de sua família. Todos, médicos, enfermeiros e auxiliares a adotaram e lhe deram o melhor tratamento.

Outro acontecimento, na mais tenra idade de Doroti, quando devia ter por volta de sete anos. Quando saímos da escola isolada e fomos para o Colégio Estadual Luiz Delfino, ela e eu ficamos em salas diferentes. Ela, como era muito inteligente, era uma das primeiras a concluir os exercícios que a D. Clélia passava na lousa. Como Doroti estava ociosa e já havia terminado tudo o que lhe tinha pedido a professora, começou a fazer um ensaio, escrevendo de olhos fechados, a mesma lição que já estava pronta. A professora, não teve dúvidas: nem sequer foi olhar o caderno de Doroti e, com uma grande régua de madeira, bateu nas mãozinhas frágeis daquela aluninha que estava tentando ocupar-se, já que estava impaciente com a demora dos outros colegas.

Infelizmente, eram os tempos da palmatória. Doroti, que tinha uma letra primorosa, desde esse acontecimento infeliz, passou a escrever com garatujas inintelegíveis até sua morte. Eu, hoje, enquanto psicóloga, concluo que o trauma deve ter sido muito profundo para aquela alma sensível e gentil.

Luzia Müller

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Fora Amazonino!

Hoje, ao chegar em casa, acesso o twitter pelo celular e me deparo com algumas mensagens indignadas com o Amazonino. Até então, nenhuma novidade. Numa delas, havia um link para o YouTube e assisti ao vídeo que realmente justifica as mensagens que eu havia lido. O vídeo retrata o prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, no auge do seu descontrole “sugerindo” para a moradora de uma área de risco que “Morra” por três vezes (igual a Pedro negando Jesus) depois desta ter dito que morava ali por não ter opção. Não satisfeito, pergunta sua origem e ao ouvir “sou do Pará” solta: “pronto, tá explicado!”. E entendo a indignação dos tuiteiros e promovo o assunto para meus poucos seguidores. E me motivo a escrever um registro para o blog.

Minha primeira reação foi uma indignação do tamanho dos problemas que a cidade enfrenta por omissão e incapacidade de gestão pública. Como pode uma reação dessas? Vi que a repercussão já conta no mínimo com Globo, Folha, G1, UOL, etc. que, embora eu tenha restrições a tais veículos, reconheço que atingem um público muito amplo. A assessoria tentará explicar. Os coniventes/parceiros/dependentes de Amazonino ficarão calados. Os vereadores da situação esperarão um pouco para ver se devem ou não abandonar o barco do “capitão Negão”. A oposição irá pra cima (espero). Mas quem vai definir isso é a população. Por isso devemos dar um basta nessa política de “faz de conta” que já não engana mais a ninguém e tomar as ruas numa só voz: FORA AMAZONINO!

Esse episódio é só um estopim para uma revolta latente do povo manauense. Temos que registrar nossas impressões sobre o ocorrido e direcionar essa mudança que já está em curso desde as manifestações pela meia-passagem. Seguir o exemplo do Egito e externar a revolta de quem está segregado nas áreas de risco e ainda tem que encarar preconceito daquele que deveria trazer sua solução. Que morra e seja enterrada a velha política populista que maquia a realidade e que de sua compostagem sujam alternativas para a justiça social e o direito à cidade. Enquanto isso não acontecer, que não haja paz no mundo politiqueiro na qual Amazonino representa o que há de pior.

Manaus, 21 de fevereiro de 2011

André de Oliveira Moraes

Confira abaixo o vídeo da cena.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos na Ditadura


É justo e necessário o país se mobilizar pelos desaparecidos políticos da Ditadura Militar no Brasil (1964-1984). Entretanto, por que não há o mesmo interesse na busca dos índios desaparecidos durante a Ditadura Militar por se oporem a política do governo sobre seus territórios?
Em 1968, o Governo Militar invadiu com a rodovia BR-174, Manaus – Boa-Vista, o território Kiña (Waimiri-Atroari). Em 1975, pelo menos 2000 pessoas já haviam desaparecido, todos pertencentes ao povo Kiña. Isso porque se opunham ao processo de invasão de seu território imposto pelos Militares.
O massacre ocorreu em etapas. Na primeira delas quem esteve a frente da construção da rodovia foi o Departamento de Estradas e Rodagem / Amazonas (DER/AM). Os relatórios mensais dos trabalhos sempre se faziam acompanhar com pedidos de armas e munição como este:
“Vimos pelo presente, solicitar seu especial obséquio no sentido de ser expedida pelo S.F.I.D.T., uma autorização para compra de 6 revólveres “Taurus” calibre 38 duplo (...), 2 espingardas calibre 16, 53 caixas de cartuchos calibre 16, 16 caixas de balas calibre 38 longo, 25 caixas de cartuchos calibre 20, e 2 caixas de balas calibre 32 simples.
Esclarecemos, outrosssim, que referida munição será uttilizada como medida de segurança e de certo modo manutenção (...)”. (Of.DER-AM/DG/No. 170/68 de 04 de abril de 1968. Ass. pelo Eng. Otávio Kopke de Magalhães Cordeiro, Diretor Geral, ao Major Luiz Gonzaga Ramalho de Castro).
Oficialmente a FUNAI era encarregada da política indigenista, mas logo ficou evidente que a a área Waimiri-Atroari ficaria sob o controle militar.
A segunda etapa se inicia no ano seguinte. Em junho de 1968, o Pe. João Calleri, nomeado pela FUNAI para a direção dos trabalhos de atração, fez um plano minucioso para os primeiros contatos e posterior fixação dos índios fora do roterio da BR-174. No entanto, foi obrigado pelo Major Mauro Carijó, Diretor do DER/AM, a mudar o seu plano o que causou a trágica morte do Pe Caleri e seus auxiliares, em outubro de 1968. Isso possibilitou uma intensa campanha de repúdio aos Waimiri-Atroari criando uma situação favorável à intervenção militar brutal.
O Governador do Amazonas, Danilo Areosa, pedia providencias para garantir “a construção da estrada através do território indígena, a qualquer custo”, considerando o índio um inútil, que precisava “ser transformado em ser humano útil à Pátria”. E prosseguia: “os silvícolas ocupam as áreas mais ricas de nosso Estado, impedindo a sua exploração, com prejuízos incalculáveis para a receita nacional, impossibilitando a captação de maiores recursos para a prestação de serviços públicos”. (A Critica / Manaus 27 de novembro de 1968). Seu colega, Governador de Roraima, Fernando Ramos Pereira, completou: “Sou de opinião que uma área rica como essa não pode se dar ao luxo de conservar meia dúzia de tribos indígenas atravancando o seu desenvolvimento”.(Resist. Waimiri-Atroari / Marewa / Itacoatiaria / 1983, pg 6).

No final de 1968 o Comando Militar da Amazônia instalou um quartel no Igarapé Sto. Antonio do Abonari, que passou a controlar a vida e o destino dos índios. A partir daí a FUNAI se tornou apenas um joguete do Governo Militar a serviço do 6º BEC - Batalhão de Engenharia e Construção.
O abastecimento de armas e munição ficou a cargo do Exército, não demandando mais autorização especial. Trabalhadores, soldados e funcionários da FUNAI invadiam a área indígena enpunhando armas e utilizado-as contra os índios. Revólveres, metralhadoras, cercas elétricas, bombas, dinamite e gás letal, foram algumas das armas utilizadas pelo Exécito na guerra contra os índios durante a construção da BR-174.
Entre 1972 e 1975 a população Kiña reduziu de 3.000 (estimativa do P. Calleri em 1968, confirmada por levantamento mais minucioso da FUNAI em 1972) para menos de 1.000 pessoas, sem que a FUNAI e os militares apresentassem as causas dessa depopulação. Esses 2.000 Kiña desapareceram sem que fosse feito um só registro de morte. Durante o processo de alfabetização desenvolvido por nós e continuado pelo lingüista Márcio Silva, os Waimiri-Atroari tiveram, em curto período, uma das raras oportunidades de revalarem o que o seu povo sofreu durante a Ditadura, sofrimento que nenhum outro segmento da sociedade brasileira passou.
Desapareceram nove aldeias na margem esquerda do Médio Rio Alalaú; pelo menos seis aldeias no Vale do Igarapé Sto. Antonio do Abonari; uma na margem direita do Baixo Rio Alalaú; três na margem direita do Médio Alalaú; as aldeias do Rio Branquinho, que não aparecem nos relatórios da FUNAI; e pelo menos cinco aldeias localizadas sobre a Umá, um varadouro que ligava o Baixo Rio Camanau, (proximidades do Rio Negro) ao território dos índios Wai Wai, na fronteira guianense. Pelo menos uma delas foi massacrada por bombardeio de gás letal, com apenas um sobrevivente (Sobreviventes dessas cinco aldeias foram nossos alunos em Yawará / Sul de Roraima).
A partir do 2º semestre de 1974 as estatísticas da FUNAI começaram a referir números entre 600 e 1.000 pessoas e, em 1981, restavam apenas 354.
Em 1987 o Governo Federal passou o comando da política indigenista à responsabilidade da empresa Eletronorte que apenas mudou de estratégia, continuando o contrôle das informações e a política de isolamento dos índios como ao tempo dos militares.
Essa é uma das histórias envolvendo os povos indígenas e a Ditadura Militar no Brasil. Casos semelhantes podem ser observados com os índios Krenhakarore do Peixoto de Azevedo no Mato Grosso, os Kané (tapayuna ou Beiços-de-pau) do rio Arinos no Mato Grosso, os Suruí e os Cinta Larga de Rondônia e Mato Grosso e outros. No entanto, nenhum desses homens, mulheres e crianças é citado nas relações dos desaparecidos da Ditadura.


[Para quem desejar conhecer outros textos que fazem parte desta série, pode procurar nos link´s nas datas de publicação. São elas: 13/03/2011; 15/05/2011; 04/09/2011; e 06/02/2012.]
 



Casa da Cultura do Urubuí / Pres. Figueiredo / AM - 19 de fevereiro de 2011


Egydio Schwade

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Semente na Terra

No último sábado, dia 12 de fevereiro, nossa família e amigos se reuniram para colocar a cruz no local onde foi sepultado o corpo de nossa querida mãe Doroti. Como lembrou nosso pai Egydio, Dorô sempre se preocupou em assumir sua cruz, nunca escolhendo os caminhos mais fáceis e sempre buscando ser coerente com sua fé. Foi um momento de oração e agradecimento a Deus pela sua vida, e por ter-nos deixado conviver com está pessoa tão amada e querida por todos nós.

A cruz foi construída pelos próprios filhos, entalhada em madeira e decorada com algumas das coisas que ela gostava ou que fizeram parte da sua vida. Assim, a cutia, uma das grandes plantadoras de castanha da floresta, as flores, a panela no fogo e o pé de cará estão lá representados. Também foi escrito, no verso da cruz, o trecho de uma música: “Põe a semente na terra, não será em vão! Não te preocupe a colheita, plantas para o irmão”, que retrata bem sua passagem pelos povos indígenas e Comunidades Eclesiais de Base e, também, sua vida de agricultora no Amazonas. Para lembrança da família que ela formou, foram entalhados o símbolo Inca do matrimônio, composto pelo sol e pela lua, e mais cinco estrelas, que representam seus filhos, mas também a sua orientação para nós filhos e a luz de Cristo, que ela sempre buscou refletir através de suas ações.

No local, está crescendo um jardim que procura imitar o gosto dela, belo e alimentício. Cada pessoa pode plantar algo ali. Já vigoram diversas espécies de plantas ornamentais (algumas mudas preparadas por ela mesma), chicória e ariá. Dessa forma queremos que sua vida e seus ensinamentos permaneçam sempre e desejamos que a terra continue florescendo e frutificando.

Mayá Müller Schwade

DOROTI: EROINA DEL VANGELO

“Nata in una famiglia umile di Blumenau/SC (Brasile), ha tracciato la sua strada dal sud del Brasile verso il nord, sempre cercando di difendere il diritto degli esclusi e, in modo speciale, dei popoli indigeni, per finire i suoi giorni di percorso sulla terra come moltiplicatrice, costruttrice e stimolatrice di forme di agricoltura che rispettino la natura e la gente.”.

“Doro nacque l´8 maggio 1948. A 13 anni cominció a lavorare nel commercio della cittá per aiutare nelle finanze della famiglia. A 15 anni firmó il suo primo libretto di lavoro. Fece le elementari e il liceo scientifico nella scuola pubblica, e poi la facoltá di pedagogia. Fin da piccola si era proposta di dedicare la vita ai piú poveri, pensando all´inizio di andare come missionaria laica in Africa. Partecipó al movimento giovane della Chiesa Cattolica e fu scelta, nel 1973, tra un gruppo di giovani che rappresentó lo Stato di Santa Caterina in un incontro latino-americano in Paraguay.

Nel viaggio di ritorno conobbe Padre Renato Barth, che l´invitó a partecipare alla “Operação Anchieta” (OPAN), che oggi si chiama “Operação Amazônia Nativa”, con sede a Cuiabá (Mato Grosso). L´OPAN prepara giovani missionari laici per il lavoro con gli indios del Brasile e specialmente dell´Amazônia. Vedendo davanti a sé la realizzazione del suo sogno, non pensó due volte. Entró in contatto con la direzione dell´istituto e l´anno seguente partecipava giá al corso di preparazione a Caxias do Sul. Poi passó alla periferia di Porto Alegre dove fece lo stage di convivenza con le popolazioni povere.

All´inizio del 1975 Padre Gunter Kroemer della Prelatura di Diamantino/Mato Grosso la presentó alla comunitá di Novo Horizonte, oggi Comune di Novo Horizonte do Norte/Mato Grosso, ove insegnó per un anno nella scuola pubblica locale.

L´anno seguente l´OPAN la mandó in Acre, per lavorare assieme al CIMI-Amazônia Ocidental (Consiglio Indigenista Missionario) di recente creazione, che comprendeva Acre, Medio Purus e Medio Rio Madeira. Doroti fu eletta come prima coordinatrice di quel Regionale. A quei tempi nessuna prelatura di quella regione aveva una pastorale indigenista organizzata. Perció Doroti si addentró lungo i fiumi, unico accesso alle comunitá indigene e rurali, per localizzare i popoli indigeni rifugiati presso le sorgenti dei fiumi e ruscelli”. “Quando qualche Prelatura o Parrocchia non le dava alloggio, Doroti andava da sola su barche di pescatori o piccoli commercianti, i cosiddetti "marreteiros” (scambisti). Cosí scoprí comunitá che né la Chiesa né la FUNAI (ndt: ente statale per la difesa degli indios) conoscevano, e che affrontavano grandi difficoltá a causa dello sfruttamento da parte dei padroni del seringal (ndt: zona di raccolta del caucciú), dei conflitti con raccoglitori, e delle malattie portate agli indios dagli invasori che occupavano il loro territorio. Portó a casa le prime notizie di popoli isolati, come i Suruaha, localizzati presso un affluente del Rio Tapauá, i cui primi contatti furono poi realizzati da membri del CIMI e della OPAN.

Si sposó nel 1978 con Egydio Schwade, che era allora Segretario Esecutivo del CIMI Nazionale. La prima intenzione della coppia fu di continuare il lavoro di Doroti nella Prelatura di Lábrea, che consideravano una delle situazioni piú urgenti da affrontare. Ma il Vescovo di quella Prelatura si negó a riceverli. Finalmente dom Jorge, vescovo della Prelatura di Itacoatiara/Amazzonia, li invitó a lavorare con i Waimiri-Atroari. Era un compito doppiamente difficile. Primo, perché la dittatura militare manteneva il blocco su quel popolo. Secondo, perché Egydio, fin dal 74, aveva la proibizione da parte della stessa dittatura di penetrare nelle aree indigene del paese. Nonostante egli non abbia mai obbedito a quella proibizione, per lui il lavoro indigenista era diventato molto difficoltoso.

Si alloggiarono in un primo tempo nella sede della Prelatura di Itacoatiara. Poi, dopo alcuni contatti clandestini con i villaggi, si stabilirono a Presidente Figueiredo, ai margini della strada BR-174. Alla fine della Dittatura Militare furono invitati dagli indios e autorizzati dalla FUNAI a partecipare alla vita dei loro villaggi, e cominciarono la prima alfabetizzazione nella loro lingua materna. Per la prima volta il popolo Kiña ossia Waimiri-Atroari poté raccontare cosa era accaduto loro durante la Dittatura Militare.

“Ma in conseguenza di quelle rivelazioni fummo espulsi dalla regione nel dicembre del 1986 dal Presidente della FUNAI di allora, oggi senatore, Romero Jucá”.

Si stabilirono, allora, nella cittá di Presidente Figueiredo, dove aiutarono il Sindacato dei Lavoratori rurali e crearono il Partito dei Lavoratori (PT). Continuarono pure la lotta contro i nemici principali dei Waimiri-Atroari, i grandi progetti di minerazione e idroelettrici, ma che alla fine, nonostante la lotta di molti, furono installati dai governi della Nuova Repubblica in continuitá con la politica della dittatura militare.

Di fronte a questo, nel 1992 cambiarono la strategia di lotta. Invece di compattere i grandi progetti irreversibili per tutto lo Stato, decisero di contrapporsi con i loro piccoli progetti: una agricoltura nella sua biodiversitá amazzonica. E in questo nuovo contesto Doroti, nonostante fosse di origine urbana, divenne la principale responsabile degli investimenti sulla terra. In questo percorso li hanno accompagnati sempre, nelle gioie e nelle sofferenze, i figli Marcos Ajuri, Maurício Adu, Tiago Maiká e Luiz Augusto e la cara figlia Mayá Regina.

Casa da Cultura do Urubuí, 11.02.2011

Texto original em Português “Vida e Histórias de Doroti Schwade: Texto 1”. Traduzido e publicado em italiano pelo blog BARTIMEO3.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Casa da Cultura do Urubuí

Entre as décadas de 1970 e 90, o casal Egydio Schwade e Doroti Alice Müller Schwade (ele Gaúcho e ela Catarinense), se fixou nessa região entre o Sul de Roraima e Norte do Amazonas para apoiar o povo Waimiri-Atroari. Acabaram vivendo intensamente o drama que passavam as populações indígenas e camponeses da região. Atuaram no Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e Operação Amazônia Nativa (OPAN), no MAREWA (Movimento de Apoio à Resistência Waimiri-Atroari), no Sindicato dos Trabalhadores Rurais e no Partido dos Trabalhadores (PT).

Ao longo dessa caminhada foram guardando muitos dados que atualmente compõe um arquivo que é o mais completo sobre a região. São documentos raros sobre a construção da BR-174, da Hidrelétrica de Balbina, a instalação da Mineradora de Pitinga, dos latifúndios grilados e história do povo Waimiri-Atroari.

“Desde a criação do município sentimos o empenho das autoridades no sentido de evitarem a história da região: nenhum documento, nenhuma sala destinada à guarda da memória. Nas escolas ninguém ensinava a história da BR-174 e nem dos Kiña (Waimiri-Atroari). Diante disso tomamos a iniciativa de criar o Arquivo de Etno-história da região” {Egydio Schwade}.

Egydio e Doroti tentaram sempre manter vivas as memórias dessa região. Consequentemente os arquivos já foram utilizados por dezenas de pesquisadores de universidades, institutos de pesquisas e estudantes com e sem vínculos institucionais, e serviram de suporte para teses, dissertações e livros. Esses documentos foram provisoriamente arquivados em uma casa de madeira. Preocupados com o destinos desses documentos, alguns amigos propuseram a construção de estrutura mais adequada. Então, por meio de doações de amigos da família foi erguida, em 1992, a Casa da Cultura do Urubuí, no município de Presidente Figueiredo - AM. O nome foi inspirado no igarapé que margeia a cidade. É uma casa de alvenaria com dois andares e arquitetura regionalizada. A cobertura é de cavaco de massaranduba apoiada em esteios de quari-quari.

Além do acervo documental, ela também abriga uma pequena biblioteca. No início, está foi a única biblioteca existente no município, acessada gratuitamente por estudantes das escolas municipais e estadual, pois dispunha principalmente de um bom acervo de livros didáticos. Atualmente as escolas e a própria prefeitura dispõem de bibliotecas com esta finalidade. Isso reduziu a procura por livros didáticos mudando também o foco dos livros disponibilizados na Casa.

Desde o seu inicio a Casa da Cultura do Urubuí tem procurado servir de modo especial à causa dos oprimidos, principalmente aos povos indígenas e aos pequenos agricultores. Alguns dos serviços oferecidos são:

1.Consulta ao arquivo de etno-história da região.

2.Pequena biblioteca que mantém livros sobre assuntos como: as questões indígenas; grandes projetos rodoviários, de exploração mineral e energético e seus impactos; saúde; agroecologia e sustentabilidade; criação de abelhas; movimentos sociais;

3.Cursos, estágios e visitas técnicas em agroecologia, criação de abelhas e sustentabilidade na Amazônia.

Casa da Cultura do Urubuí, 15 de fevereiro de 2011.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Vida e Histórias de Doroti Schwade: Texto 1

Doroti Alice Müller Schwade é um exemplo de vida que inspira e fortalece aqueles que acreditam e lutam para a construção de um mundo mais justo e fraterno. Nascida numa família humilde da cidade de Blumenau/SC, traçou seu caminho de sul a norte do Brasil, sempre procurando defender o direito das populações excluídas deste país e, em especial, dos povos indígenas, tendo terminando seus dias de caminhada sobre a Terra como multiplicadora, construtora e incentivadora de formas de agricultura que respeitam a natureza e as pessoas.
As histórias desta caminhada bonita e heróica devem, por isso, ser lembradas. E é por este motivo que iniciaremos hoje a publicar semanalmente neste blog textos, documentos e depoimentos que ajudam a lembrar e divulgar esta história.Antes de iniciarmos, partindo de uma rápida síntese da trajetória de Doroti, queríamos convidar a todos os amigos que conviveram com ela e se sintam a vontade e felizes em registrar algo, que nos enviem seus textos. Pretendemos juntar e sistematizar posteriormente todo o material que conseguirmos sobre ela, mas não como uma história morta e sim como uma história viva, que contenha as emoções, sensações e sentimentos de todos. Os textos mais apropriados para o blog também vão ser publicados neste espaço que inauguramos hoje. Vosso material pode ser enviado para egydio.schwade@gmail.com ou mauadu@gmail.com.
Doro nasceu no dia 8 de maio de 1948. Aos 13 anos começou a trabalhar no comércio da cidade para ajudar nas finanças da família. Aos 15 assinou a sua primeira carteira de trabalho. Fez o seu primário e científico em escola pública, ingressando em seguida na faculdade de Pedagogia.
Desde pequena se propôs a dedicar a vida aos mais necessitados, pensando inicialmente em ir como missionária leiga para a África. Participou do movimento jovem da Igreja Católica onde foi escolhida, em 1973, para integrar um grupo de jovens que representou a juventude catarinense em um encontro latino-americano no Paraguai.
Na viagem de volta conheceu o Pe.Renato Barth que a convidou para integrar a Operação Anchieta – OPAN, hoje Operação Amazônia Nativa, sediada em Cuiabá. A OPAN treina jovens missionários leigos para trabalharem com os índios do Brasil e, em especial, da Amazônia. Vendo seu sonho diante dos olhos, não pensou duas vezes. Comunicou-se com a coordenação da instituição e no ano seguinte já participava do curso de preparação em Caxias do Sul. Dali seguiu para a periferia de Porto Alegre onde fez estágio de treinamento para convivência com populações pobres.
No inicio de 1975 o Pe. Gunter Kroemer da Prelazia de Diamantino/MT a apresentou à comunidade de Novo Horizonte, hoje município de Novo Horizonte do Norte/Mato Grosso, onde lecionou um ano na escola pública local.
No ano seguinte a OPAN a destinou ao Acre, para uma ação conjunta com o recém-criado regional do CIMI - Conselho Indigenista Missionário / Amazônia Ocidental que incluía o Acre, o Médio Purus e o Médio Rio Madeira. Doroti foi eleita primeira coordenadora deste regional. Na época nenhuma das Prelazias incluídas neste Regional do CIMI, ou seja, Rio Branco, Cruzeiro do Sul, Lábrea e Humaitá, possuía pastoral indígena organizada. Por isso, Doroti internou-se pelos rios da região, único acesso às comunidades indígenas e rurais, na busca de localizar os povos indígenas refugiados nas cabeceiras de rios e igarapés. Percorreu primeiro o rio Iaco, o Alto Purus, o Envira, depois desceu pelo Purus e seus afluentes, no rumo de Lábrea/Amazonas. E, finalmente, pelo médio rio Madeira e seus afluentes. Quando alguma Prelazia ou paróquia não lhe dava apoio logístico, Doroti ia sozinha em embarcações de pescadores ou de pequenos comerciantes, os “marreteiros". Assim foi localizando comunidades até então desconhecidas pela Igreja e pela FUNAI, e que enfrentavam grandes dificuldades por causa da exploração exercida por patrões de seringal, pelos conflitos com seringueiros e por doenças trazidas pelos invasores e ocupantes de seus territórios. Trouxe as primeiras notícias de povos isolados, como o dos Suruaha, localizado em um afluente do Rio Tapauá, cujos primeiros contatos foram depois feitos por membros do CIMI e da OPAN.
Casou-se em 1978 com Egydio Schwade, que era então o Secretário Executivo do CIMI Nacional. A primeira intenção do casal foi a de continuar o trabalho de Doroti na Prelazia de Lábrea que considerávam uma das situações mais urgentes a ser enfrentada. Mas o Bispo daquela Prelazia negou-se a recebê-los.
Finalmente Dom Jorge, bispo da Prelazia de Itacoatiara/AM, convidou-os para assumir o trabalho junto aos Waimiri-Atroari. A tarefa era duplamente desafiadora. Primeiro por causa do bloqueio mantido pela Ditadura Militar sobre esse povo. Segundo, porque Egydio estava, desde maio de 1974, proibido pela mesma ditadura de penetrar nas áreas indígenas do país. Embora jamais tenha obedecido a tal proibição, o trabalho indigenista se tornou mais dificultoso para ele.
Localizaram-se primeiro na sede da Prelazia em Itacoatiara. E, após alguns contatos clandestinos com as aldeias, estabeleceram-se em Presidente Figueiredo, na margem da Rodovia BR-174.
Com o fim da Ditadura Militar foram convidados pelos índios e autorizados pela FUNAI a participar da vida em suas aldeias, iniciando a primeira alfabetização em sua língua materna. Pela primeira vez o povo Kiña ou Waimiri-Atroari, pode revelar o que lhe aconteceu durante a Ditadura Militar.
Mas, em conseqüência dessas revelações foram expulsos da área em dezembro de 1986 pelo então presidente da FUNAI, hoje senador, Romero Jucá. Estabeleceram-se, então, em Presidente Figueiredo, onde assessoraram o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e criamos o Partido dos Trabalhadores. Continuaram também a luta contra os principais inimigos dos Waimiri-Atroari, os grandes projetos de mineração e hidrelétricos, mas que, afinal, apesar da luta de muitos, foram instalados pelos governos da Nova República numa continuidade de ações da ditadura militar.
Diante disso, em 1992 mudaram a estratégia de luta. Ao invés de combater grandes projetos irreversíveis para todo o Estado, resolveram contrapor com o seu próprio pequeno projeto: uma agricultura na sua biodiversidade amazônica. E neste novo contexto Doroti, embora de origem urbana, tornou-se a principal responsável pelo investimento na terra.
Nesta caminhada os acompanharam, nas alegrias e no sofrimento, os filhos Marcos Ajuri, Maurício Adu, Tiago Maiká e Luiz Augusto e a querida filha Mayá Regina.

Casa da Cultura do Urubuí, 11 de Fevereiro de 2011.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Hidrelétrica de Belo Monte: como compreender suas conseqüências*

Quando ouvimos as informações mais fortemente propagadas sobre as hidrelétricas de Belo Monte, temos a impressão de que o impasse a respeito do projeto se dá por conta da oposição de ambientalista a implantação das obras (Ambientalistas X Desenvolvimentistas). O que não fica claro é a oposição que povos indígenas, populações camponesas e parceiros estão travando em defesa de seus territórios.
Para compreender esta oposição, peço ao leitor que se imagine em sua comunidade. Aí, você desenvolve suas articulações sociais, onde fome e degradação ambiental são termos exóticos. Esse lugar encerra todas as suas redes sociais, contém seus templos religiosos, sua história e a história de seu povo.
De repente, um país estrangeiro anuncia que necessita desse seu lugar para alimentar as necessidades crescentes de seus príncipes. Eles pedem que você e seus vizinhos se mudem dali. Você não compreende os motivos, mas eles te explicam que isso tudo será necessário para o otnemivlovnesed.
Mas otnemivlovnesed não significa nada para você. Eles insistem e dizem que você não precisa se preocupar. Sua comunidade poderá viver nas cidades deles e que assim vocês também poderão desfrutar do otnemivlovnesed.
Mas, mesmo não querendo criar seus filhos em um lugar estranho, você não tem escolha. Quando percebe, seus filhos já não mais compreendem as suas histórias e sentem uma necessidade louca de otnemivlovnesed, mas isso é muito caro para você.
Sua família vai passar muitas gerações trabalhando em busca de otnemivlovnesed e, enquanto isso, você não mais conseguirá reconhecer seu povo, sua imagem estará eternamente exposta em um museu, como um cara estranho, primitivo ao lado de fotos da fauna e da flora. É possível que gravem um documentário para o Globo Natureza ou para outro programa de TV, mostrando você como representante daquele mundo selvagem, ignorando sua cultura e história.
Nas obras, você será o mais prejudicado, mas a imprensa vai fazer questão de dizer que existem dois lados opostos: os que defendem a natureza selvagem e os que defendem o otnemivlovnesed que, lido as avessas: desenvolvimento.
É bem verdade que os interesses dos povos e populações atingidas por Belo Monte convergem com os interesses de ambientalistas. No entanto, além da destruição da natureza, é o destino de vários povos indígenas do rio Xingu que mais preocupa, pois correm sérios riscos de perderem a terra e o rio. Vale lembrar que são as relações que o Kaiapó mantém com a natureza que garantem a manutenção de tanta vida naquele importante pedaço do mundo.
E o que podemos oferecer em troca disso? Um belo lugar em Altamira, um cidade sem infra-estrutura para manter seus 94 mil habitantes e que deve dobrar de tamanho com o grande contingente de homens atraídos por especulações sobre a hidrelétrica?
Casa da Cultura do Urubuí, 03 de fevereiro de 2011
Tiago Maiká Müller Schwade

*Texto inspirado em "Ritos corporais entre os nacirema" de Horace Mine

Carta do sertanista Odenir Pinto de Oliveira ao Presidente da Funai

Senhor Márcio Meira
Presidente da FUNAI
C/c Ministro da Justiça

Márcio Meira,

Parece que foi ontem, mas foi em novembro de 1979 que o coronel João Carlos Nobre da Veiga assumiu a presidência da FUNAI.
Nobre da Veiga entrou dizendo que o Órgão era “um mar de lama” e, junto com o seu principal assessor, coronel Ivan Zanoni, deu início a uma série de mudanças que permitisse uma “nova FUNAI”. Muitas delas com forte conotação político/ideológica, respaldadas nas teorias de estratégia militar tão bem defendida pelo seu principal assessor, inclusive com livro publicado.
Dentro da FUNAI, Nobre da Veiga tomou as seguintes providências – pelo menos as que ficaram mais conhecidas:

a) Demite, já de começo, 39 indigenistas por serem “subversivos” e porque precisava mudar o paradigma do “indigenismo oficial”;
b) Reestrutura administrativamente o Órgão com esse objetivo e para “fortalecer as unidades regionais”;
c) Incrementa o projeto de emancipação compulsória dos indígenas, criando os famosos “critérios de indianidade” e declara que todos os índios perderiam a tutela e “estariam emancipados em três gerações”;
d) Edita várias Portarias permitindo empreendimentos dentro das terras indígenas e facilita a exploração mineral em terras indígenas;
e) Com ajuda do Conselho Indigenista e do Ministro do Interior Mário Andreazza, proíbe Mario Juruna de participar do Tribunal Russel, na Holanda.

Pois bem, Márcio Meira, parece que foi ontem. Vinte e oito anos depois de Nobre da Veiga, você assume a presidência da FUNAI e, como seu antecessor de vinte e oito anos atrás, você veio para implementar um “novo indigenismo oficial”, desta vez com muita ideologia neoliberal e com muita política partidária – mas tão parecida com a de Nobre da Veiga e Zanoni – que fico imaginando que o tempo não passou.
Nobre da Veiga queria um “novo indigenismo” porque, segundo ele, aquele que havia era “ultrapassado e responsável pelo atraso da FUNAI”.
Parece que há algo muito familiar e atual nesse discurso, não? Mas não vou enumerar essas semelhanças. Porém, é inevitável dizer que tanto quanto Nobre da Veiga, você também quer reestruturar o Órgão com medidas que atentam contra direitos indígenas consagrados pela Constituição e pela Organização Internacional do Trabalho - OIT; você implementa uma política de extinção da tutela, sem amplo debate com os povos indígenas, como se a tutela fosse algum direito que o governo “deu” no passado e agora pode “tirar” ao seu bel prazer; você usa a Polícia Militar, a Guarda Nacional e o Polícia Federal para, sob argumento de proteger bens públicos, impedir que as populações indígenas se manifestem contra sua administração e a presença dos “novos zanonis” dentro do Órgão.
Na ditadura militar, Nobre da Veiga dizia que, ao contrário da vontade dos povos indígenas, ele deveria continuar sendo presidente da FUNAI porque essa era uma “missão” que ele havia recebido dos seus superiores. Até o dia em que ele, no ímpeto de transformar o Órgão, comprou um novo prédio no Setor de Indústria de Brasília, para instalação dessa “nova FUNAI”, e no mesmo dia um belo apartamento, (não confundir com belo monte), localizado na Avenida Vieira Souto, no Rio de Janeiro, foi passado em seu nome. O Tribunal de Contas da União, acionado, tomou as devidas providências. Mas Nobre da Veiga não ficou conhecido porque queria morar na Vieira Souto: ele ficou conhecido por atentar contra os direitos dos povos indígenas.
Ontem li na revista Época que você, mais uma vez, contrariando parecer técnico do setor responsável da FUNAI, encaminhou ao IBAMA o Ofício nº 013/2011/GAB-FUNAI, de 20 de janeiro de 2011,........A FUNAI não tem óbice para emissão da Licença de Instalação – LI das obras iniciais (sic) do canteiro de obras da UHE de Belo Monte, considerando a garantia de cumprimento das condicionantes.(sic). Em seguida, no mesmo Ofício, você pede que o IBAMA.....atue junto com a FUNAI no acompanhamento......., que não vou continuar transcrevendo, dado o ridículo dessa coisa.
Muitas vezes a gente pensa que já viu de tudo e do seu contrário também.
Mas nunca é verdade, porque as justificativas para os absurdos que alguns cometem quando estão na presidência da FUNAI, mudam de tempos em tempos. É muito provável que você dirá que está fazendo isso porque recebe orientação do seu partido político, do seu superior, da presidente da República, etc, etc, mas lhe digo uma coisa: desde o dia em que você, em novembro de 2009, concedeu a primeira, (Licença Prévia) ao IBAMA, para a mesma UHE de Belo Monte, de forma misteriosa porque também contrariava parecer técnico do órgão, nunca mais você poderá dizer que está na presidência da FUNAI porque quer o bem dos povos indígenas. No máximo, você poderá dizer que está aí porque tem uma “missão”.
E o dia em que você conceder a última, Licença de Operação, para UHE de Belo Monte, mais uma vez o Estado brasileiro, através do seu organismo oficial de indigenismo, estará, numa trajetória iniciada por Nobre da Veiga e Zanoni há vinte e oito anos atrás, impedindo que os povos indígenas protagonizem seu destino e participem do destino do Brasil.

Brasília, 02 de fevereiro de 2011

Odenir Pinto de Oliveira
Sertanista aposentado

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Nenhum Estado Suporta a Autonomia

Atrevo-me a abrir o leque de opiniões, análises e interpretações correntes da história amazônica. Os missionários jesuítas do período colonial, (distingo aqui os missionários jesuítas dos professores jesuítas de colégios e de universidades, porque enquanto estes eram funcionários de instituições, aqueles procuravam realizar uma vocação ou missão junto a um povo), portugueses ou não, todos vieram para o Brasil em naus dos governos colonialistas. Isto lhes tirava a autonomia e a liberdade no trabalho com os povos indígenas, esses povos autônomos das Américas. Entretanto, a Ordem Jesuítica convoca periodicamente Congregações Gerais para avaliar os impasses que seus missionários enfrentam. Assim, em uma delas, pelo final do século XVII, concluíram que a sua ação junto aos povos indígenas prejudicava a estes e favorecia os comerciantes e fazendeiros. Decidiram, então, iniciar um paradigma de missão que devolvesse paulatinamente aos povos indígenas a autonomia e o domínio de suas terras.

Experiências desse tipo ocorreram simultaneamente no Canadá, no México, em Juli/no Peru, na Bolívia - a famosa República Comunista dos 30 povos Guarani (Argentina, Paraguai e Brasil) onde com o incentivo jesuíta e a pata do boi os Guaranis reconquistaram boa parte do território perdido e, finalmente, a dos aldeamentos da Amazônia.

Em todos eles começou a reinar um novo tipo de governo. Convém observar que quase todos os historiadores, influídos pela literatura dos vencedores, ou seja, dos estados colonialistas que estavam unidos contra o novo paradigma de governo emergente destas experiências com os povos indígenas das Américas, continuam até hoje difundindo a balela de que quem dominava esse modelo eram os jesuítas e não os indígenas, o que não deixa de ser fantasioso. Primeiro porque os missionários jesuítas não passavam de um grupinho insignificante de pessoas dentro das sociedades coloniais e indígenas e eram minoria até dentro da própria Ordem. A maioria da Ordem era, ontem como hoje, constituída de professores de universidades e de colégios, a serviço das elites e muitas vezes em conflito com os missionários. Basta citar um caso da época para se ter uma idéia dessa realidade conflitante. Quando os Sete Povos das Missões dos Guaranis no Rio Grande do Sul foram invadidos por bandoleiros mamelucos e 15 mil guaranis presos e amarrados foram levados ao planalto de Piratininga, onde foram convertidos em escravos dos paulistas, um grupo de missionários jesuítas seguiu atrás dos índios, a pé, até São Paulo para protestar junto aos seus irmãos de Ordem que eram professores dos filhos desses bandoleiros e assassinos, que destruíram as aldeias. Não só não receberam apoio dos seus irmãos, mas nem abrigo lhes foi dado. Seguiram então para Roma de onde voltaram com uma Bula de apoio do Papa. Mas nem assim receberam abrigo nas casas jesuíticas. Chegando ao Rio, ficaram literalmente na rua. Engavetaram então a bula papal que se tornara instrumento inútil e voltaram às suas missões, onde, comprometidos com o povo Guarani, reconstruíram as aldeias destruídas e decidiram defendê-las, daí para a frente, com novos meios. Por isso, em novo ataque os paulistas foram fragorosamente derrotados pelos Guaranis dos Sete Povos, deixando o Governo Colonial português irritado contra os jesuítas.

As missões, reduções ou aldeamentos jesuítas da primeira metade do século XVIII devolviam aos índios a terra, a autonomia, a igualdade e a fraternidade. Não conheciam a fome. No Sul a criação de gado trouxe uma abundancia que virou mito até os nossos dias nos pampas gaúchos e continua sendo celebrada nos CTGs – Centros de Tradição Gaúcha. Em uma ação conjunta, os 30 povos Guaranis formaram, em apenas um ano, uma fazenda de um milhão de cabeças de gado, reconquistando os campos da Serra Gaúcha de São Francisco de Paula. Quando os 7 povos foram destruídos em 1758 essa fazenda foi invadida por bandoleiros portugueses que mataram o gado, deixaram a carne aos urubus e arrastaram o couro até as praias, de onde os navios do Governo colonial português o levaram à Europa sem que a História registrasse sequer um escrúpulo.

Aqui no Norte o peixe abundava nos rios amazônicos e os frutos variados coloriam a margem de rios e igarapés em volta dos aldeamentos. Índios livres progrediam em suas aldeias com força e saúde para além do regime mercantil português. A alfabetização na língua materna nos aldeamentos estava mais avançada do que nas cidades mais modernas da Colônia: Belém, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. A primeira imprensa, que os livros de História do Brasil afirmam ter tido início no Rio de Janeiro, em 1758, em verdade, funcionou em Piraveri (hoje Pombal), na margem do Rio Xingu. E foi extinta pelo mitológico homem de estado Pombal, exatamente em 1758. E se existiu o propalado controle de comércio das especiarias por parte dos jesuítas desses aldeamentos, os pesquisadores ainda precisam provar a quem ele serviu e como funcionou. Se os jesuítas exportaram especiarias, como muitos afirmam, supõe-se que o faziam rumo a Europa. E como esse punhadinho de jesuítas não tinha navio algum, de que frota de navios se valeu? Dos portugueses obviamente não foi e muito menos dos navios protestantes da Inglaterra, França ou Holanda, por razões evidentes.

Pombal inaugurou a fome e a dependência dos povos da região, porque inaugurou a urbanização da Amazônia. A urbanização é um processo, instrumento do Estado, que leva sistematicamente à fome, à depredação da mãe-terra, ao fim da autonomia de qualquer povo. A Revolta dos Cabanos foi uma revolta dos pobres da Amazônia e foi sustentada principalmente pelos indígenas empobrecidos com o fim do sistema das aldeias e dos aldeamentos e a inauguração oficial do domínio português atrás das vilas sob o controle colonial.

Mutatis mutandi, vivenciamos em nossos dias experiência semelhante a dos jesuítas. Em 1987 o CIMI – Conselho Indigenista Missionário, órgão da Igreja Católica de apoio à autonomia dos povos indígenas e à reconquista da sua terra e da sua cultura, sofreu uma dura perseguição. Os seus missionários foram expulsos de diversas áreas indígenas. Na oportunidade, também nós, da equipe de trabalho do CIMI junto aos índios Kiña, ou Waimirí-Atroarí, fomos expulsos da aldeia Yawará/Roraima, onde havíamos alfabetizado na sua língua materna com aprovação e entusiasmo de índios e de cientistas que acompanhavam o nosso trabalho. Fomos difamados pela grande imprensa com acusações ridículas semelhantes às que pesam, até hoje, sobre os missionários jesuítas que atuavam nos aldeamentos da Amazônia. Acusações de tipo: “serviço à mineradoras estrangeiras”, “agitação”, “amigos do estanho”, “expulsos pelos índios”... Poucos historiadores foram constatar a veracidade das acusações e creio que não passou por nenhuma cabeça de professor de colégio jesuíta ou de PUC – Pontifícia Universidade Católica, subsidiados pelo Governo, dar apoio aos missionários do CIMI. Imagine o que os pesquisadores do futuro escreverão do trabalho do CIMI e do nosso trabalho junto ao povo Waimiri-Atroari, quando fizerem as suas pesquisas e teses de universidade! Se eles forem tão pouco críticos quanto são os de hoje, certamente prevalecerá o que a mídia dominante escreveu. E ao CIMI teria acontecido em 1987 o mesmo que aos jesuítas do século XVIII que tentaram mudar os rumos da Historia das missões indígenas nas Américas não fosse a sua vinculação com a Igreja Católica.

Abrir novos rumos ao conhecimento dos povos amazônicos com olhar crítico sobre a História de mentiras e preconceitos criada pelos governos coloniais; adentrar-se na sabedoria desenvolvida pelos povos do lugar; analisar a ação de quem conviveu despretensiosamente com as populações regionais e partilhou com elas a sua vida e por vezes até ampliou sua visão introduzindo novos conhecimentos úteis; formar parcerias que levem alunos, cientistas e povo aos conhecimentos e aos documentos originais dos vencidos, (por exemplo, para aprofundar o período pombalino, seria interessante hoje manter contato com alguma universidade alemã, próxima a Fulda, onde se situava a sede da Província jesuítica responsável pelo envio de boa parte dos missionários do século XVIII para os aldeamentos amazônicos); esta é uma tarefa essencial que se impõe.

Aprender e ensinar a ler os bastidores da História, a buscar as letras miúdas dos vencidos, suas razões e motivações. O Estado que está aí é uma ficção que o homem criou para aliená-lo e domesticá-lo. A urbanização, o divide et impera - divida e impere, e o dinheiro são os principais instrumentos dessa domesticação. Até hoje nenhum Estado suportou um povo autônomo, realizando a vocação de pessoas livres. Por isso mesmo há que se pensar em novos paradigmas para a administração dos bens da vida na terra. A Amazônia, com sua grande biodiversidade, com os povos indígenas e ribeirinhos que vivem de uma economia invisível ao PIB, poderiam ser uma fonte de inspiração ao Estado. A organização original dos povos das Américas e as experiências dos jesuítas na metade do século XVIII, junto a alguns desses povos, nos oferecem sementes e caminhos na busca de novos paradigmas para a garantia e a reorganização da vida na terra.

Casa da Cultura do Urubuí/Amazonas.

Egydio Schwade