2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos Durante a Ditadura Militar

Que vivam os Povos Indígenas do Brasil! Que vivam Bem!

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Relatório de Doroti Escrito em 29-11-1977 (Sobre os Jamamadi)

Vida e Hitória de Dorotí Schwade: Texto 11

Obs: Este texto foi trascrito a partir de rascunho manuscrito do relatório escrito por Dorotí em 1977. Tráta-se do relatório encaminhado ao amigo Beto a que faz referência referência o texto anterior desta série.


Relatório

Saímos de carona em “batelão” (canoa grande coberta e de motor). Pernoitamos no “barracão” e seguimos viagem de canoa a remo. Um dia a remo. Ia conosco um amazonense. Já aí soubemos que na maloca onde iríamos estava programada uma “festa” e muitos civilizados iam para lá.

Quando o igarapé se tornou intransitável devido às galharias e “paus” que fechavam o caminho encontramos uma “colocação”. Neste lugar já estavam “agasalhadas” uma família de mestiços e uma mulher com as filhas que iriam para a maloca para a festa. O Pedro ajudou a refazer o “tapiri” (era uma “colocação” abandonada) enquanto eu procurei me entrosar com as mulheres. Apenas açaí para matar a fome enquanto o “caboclo” foi caçar. Lá pelas dez da noite ele veio com uma paca e todos comemos. No dia seguinte de manha comemos novamente da carne da caça e levamos uma parte para viagem. Agora por “varadouro”. Éramos 8 pessoas adultas e três crianças pequenas. Andamos por dez horas apenas com meia hora parada. O assunto era a “festa”. Seria um ritual de iniciação (só que o povo não falava assim) e os comentários eram os mais negativos a respeito do ritual. Inclusive diziam para o padre que ele deveria impedir, pois era muito bárbaro. Combinamos, eu e o padre, de que não faríamos isto, ao contrario iríamos tentar neutralizar a influencia do “civilizado”. De fato isto foi necessário.

Quando chegamos na aldeia a comida estava escassa. Os homens e rapazes que tinham saúde (eram poucos é uma pequena aldeia) iam caçar e pescar. Voltaram à noite sem nada. Isto aconteceu por três dias. Passávamos à base de banana verde e açaí. Farinha e quando tinha um peixinho se fazia um panelão de caldo. O pessoal que nós tínhamos acompanhado até aí só reclamava. Éramos um peso para a aldeia. No quarto dia os caçadores não voltaram e no quinto, véspera da festa, chegaram com uma anta e com um caitetu. Neste dia chegaram mais “civilizados” e começaram a chegar os Jamamadi que moravam por perto. (5 horas de viagem). Nos dias que antecederam a festa a gente procurou valorizar o máximo possível a lingua e os costumes do índio. Isto eu e o padre. Os outros ao contrario constantemente “mangavam” deles. A situação era tão escabrosa que as mulheres Jamamadi por não saberem falar português, quando na presença do civilizado chegavam a se comunicar apenas com gestos.

Um velho da aldeia, percebendo que a gente não agia como o povo da região, sempre que podia vinha nos explicar as coisas e ensinar a língua. Ele também quase não falava português. Um dia ele simplesmente veio perto de nós explicou, auxiliado com gestos, o sol poente. Seu olhar tinha o brilho do sol e a tranqüilidade do poente...

Chegou o dia da festa, mais “civilizado” e mestiços chegaram trazendo cachaça. Um engradado de cachaça.

Às cinco da tarde iniciou o ritual. Seria um ritual de iniciação completando muitos meses de preparação. Quando a menina fica moça ela permanece reclusa e depois é feito este ritual e atualmente não mais embelezado pelas plumagens e chocalhos e colares e pinturas que adornavam a moça. Tudo teve que ser abandonado em função da “civilização”.

Iniciou-se com gestos. As mulheres que haviam se afastado da aldeia vinham em procissão trazendo a menina com roupas novas e com o rosto coberto. Uma de cada vez iniciava uma espécie de ladainha. As outras em seguida completavam e no terreiro os homens respondiam. Tudo cantado. Quando as vozes masculinas ressoavam eu tinha a impressão de estar ouvindo uma missa solene em latim. Não vou mais entrar em detalhes sobre o ritual, apenas dizer que foi até as 7 horas da manhã seguinte. No final a menina é colocada numa espécie de altar e é acoitada pelos homens mais velhos. São alguns minutos só, mas isto é considerado uma barbaridade sem limites pelo “civilizado” é claro. Até quase esta hora de vez em quando alguém dos civilizados vinha fazer para nós comentários pejorativos sobre o que estava acontecendo e pedindo que não permitíssemos o final do mesmo.

Durante a noite, por causa da cachaça dois Jamamadi quase se mataram. Eram jovens e não participavam do ritual por vergonha, estavam em algo superior, se embebedando com a cachaça do branco. A briga foi tão violenta que tiveram que interromper o ritual e envolveu os pais dos jovens. [Algo ilegível] sob o efeito do álcool. Por pouco não se mataram os dois primos que até aquela hora eram amigos.

Quem eram os “civilizados”? Gente paupérrima. Seringueiros, castanheiros, sorveiros, a maioria homens, com exceção daquela mulher e seus filhos e sobrinhos que vieram na mesma ocasião que nós. Um patrão branco que está “civilizando” uma família que, inclusive, mora afastado da aldeia e serve de exemplo para os mais “conservadores”.

Homens subjugados, derrotados, brancos e marginalizados. Gente que nunca vê um médico, um professor e que em termos culturais é nada em relação ao índio. Este “civilizado” acha bárbaro que ritual onde participa todo um povo marcando a passagem de uma menina para o “ser mulher”. Este “civilizado” não percebe que a cachaça e a doença, o complexo de inferioridade vem matando o índio. (Nesta aldeia constatamos caso de tuberculose e soubemos que eles sofreram em anos passados grande depopulação em conseqüência da epedemia). Para eles os índios estão se “civilizando”, pois alguns já possuem toca-disco com os discos do Texeirinha. Bebem cachaça, vestem roupa como nós, são sacramentalizados e cortam seringa e sorva, produzem para o Patrão. Já não usam mais os seus adornos, se envergonham da “gíria”, fala “ruim”. Já não moram mais em malocas como antigamente modificando suas casas. Já passam fome como ele o “civilizado”. Já morrem de gripe, tuberculose, sarampo. Já suas mulheres foram usadas pelo branco (constatamos também isto). Estão se civilizando. E aquele “branco” de lá ainda pode se sentir superior pois encontrou alguém que é escoria, é o último dos homens. Ele é superior, existe alguém que é ainda pior do que ele. O Índio, este que deve morrer.

Eu vivi a tensão daquele momento e também vi outras coisas em outras malocas com outros índios. Em Jurucuá (Lábrea) para onde agora estou indo para conviver com outro grupo de Jamamadi, de outubro do ano passado até abril deste, morreram 12 pessoas por causa do sarampo e da tuberculose num grupo de 200 pessoas, mas não importa eles estão se civilizando...

Meu Deus, isto é um pouquinho do que aconteceu e vem acontecendo neste Brasil que nasceu sob a cruz.

Perto deste município onde ocorreu isto narrei, há doze anos foi exterminada uma tribo porque resistiu ao invasor.

Não é possível evangelizar índios e brancos nesta Amazônia se não respeitamos a vida e a dignidade do homem. Que que adianta toda esta sacramentalização se a injustiça, a opressão faz parte do grande e do pequeno e cada um engole o menor? Que que adiantam as malarias e outras doenças que os padres ganharam e os riscos que correram se abençoaram uma situação de injustiça uma corrente que ligou a Europa, os Estados Unidos até o seringueiro e o índio. Uma corrente que se não mata atrofia física e moralmente o homem. Opressor e oprimido, oprimido opressor... Agora uma tribo “arredia” está tendo seu território invadido porque lá ainda é um dos poucos lugares que tem sorva.

Para tu ainda perceberes a situação de preconceito vou te contar o seguinte. De vez enquando por aí, quando me hospedo numa casa de padres eles ficam me olhando e lá pelas tantas me dizem: “Você tem sangue limpo, é branca mesmo!” Sabe eu tenho vontade de retrucar: “Não, eu tenho o sangue contaminado. Historicamente sujo. Faço parte de uma raça de opressores... Carrego um pecado histórico a ser revisado, avaliado e transformado.” Será que teremos coragem de, como Igreja, fazer de fato uma revisão crítica de nossos pecados históricos? Será que teremos coragem de a partir de uma encarnação de fato junto com o povo, tornados povo, escrever a nossa história de gente e não objetos de manipulação? Creio que sim...

Desculpe, não sei se consegui me fazer entender. Mergulhei de cabeça na vida do amazonense, mas não sei transmitir esta experiência. Também sê feliz e continue a ser “farol”.

Doroti

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Casa da Cultura do Urubuí Promove Oficina de Meliponicultura


A criação de abelhas indígenas sem ferrão (Meliponicultura) é uma atividade relativamente pouco praticada na atualidade, mas de suma importância para a manutenção da biodiversidade. Estas abelhas nativas, na Amazônia são responsáveis por até 90% da politização da flora dependendo o ecossistema, segundo o grande estudioso do assunto Dr. Warwick Kerr.

São insetos que não representam perigo algum e seu cultivo pode ser feito mesmo por crianças e em ambientes urbanos. Além de sua importância na polinização, diversas espécies ainda produzem mel de ótimo sabor e muito valorizados na medicina popular.

Com a destruição dos ecossistemas naturais, a criação passa a ser muito importante para a preservação das espécies. Além disto, o gosto pela criação de abelhas desperta o interesse pelo estudo e conhecimento científico, que tem como conseqüência a formação de indivíduos mais consciente em relação à necessidade do cuidado com a natureza.

E é por isso que a Casa da Cultura do Urubuí vem incentivando a disseminação e desenvolvimento de técnicas de cultivo. Dezenas de oficinas já foram realizadas desde o ano de 1997, tendo como público principal comunidades indígenas, ribeirinhas e pequenos agricultores.

Nos dias 27 e 28 de agosto promovemos mais uma oficina onde foram feitas as práticas de:
- Transferência da natureza para caixa;
- Revisão;
- Coleta de mel; e
- Multiplicação de enxames
Ainda aforam abordados os seguintes temas:
- Proteção contra inimigos naturais;
- Dicas para construção e escolha do modelo de caixas; e
- Informações sobre a biologia das abelhas nativas.
Os participantes da oficina puderam conhecer cinco espécies diferentes pertencentes a quanto gêneros distintos.

Esperamos que o interesse pela meliponicultura continue crescendo, assim como o carinho para com os ecossistemas nativo da Amazônia.




Adu Schwade,
Casa da Cultura do Urubuí, 29 de agosto de 2011.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Florestas de Alimentos: Uma Agricultura de Reciprocidade para a Amazônia


A floresta amazônica é generosa para com a vida. Abriga incalculável diversidade de espécies, de microorganismos a gigantes como as samaumeiras. E tem sido generosa também para com a humanidade, fornecendo cores, sabores e abrigo para pessoas que vivem e que viveram aqui há milênios. E para o mundo inteiro ajudando a criar um clima agradável, da temperatura a regulação do regime de chuvas e secas. Mas nos últimos tempos muitos homens não tem tratado com o mesmo carinho esta generosa natureza, que sofre não só por si, mas por ver seus filhos sofrerem.

Não é por falta de opção que tanto se destrói. É possível fazer uma agricultura de reciprocidade com e para a Amazônia. Para isso é necessário que aja a preocupação com o aproveitamento da floresta nativa, mantendo todo o seu vigor original, sem alterá-la ou destruí-la, preocupando-se em recuperar áreas degradadas por ocupantes anteriores.

É o que muitas comunidades tradicionais fizeram e fazem, e é o que estamos procurando fazer em nossos cultivos que temos chamado de "um sistema de floresta de alimento". Iniciamos com a criação de abelhas, principais mantenedoras da biodiversidade amazônica. As áreas degradadas por ocupantes anteriores foram transformadas em pomares atrativas para o homem e para os animais silvestres e domésticos. Nele cultivamos espécies de abelhas melíferas, 72 espécies de fruteiras, sem contar as variedades, 21 espécies de tubérculos, mais hortaliças, fauna aquática e pequenos animais domésticos. Animais silvestres também circulam livremente.

O sistema utilizado faz com que a pequena área recuperada forneça tal abundância de alimentos que não só abastece de produtos variados a mesa, mas cria excedentes em maior quantidade do que o tradicional avanço predador da floresta. O aproveitamento de troncos de árvores já derrubadas e que resistiram às queimadas dos sistemas anteriores e outras que caíram na mata, derrubadas pelo vento, abastecem as necessidades de construções da família, não necessitando avançar sobre a mata virgem. Desde que iniciamos o nosso modelo de agricultura, nunca derrubamos floresta nativa.

Usando adubo orgânico, consorciando os plantios e variando as técnicas dos plantios, podem-se obter boas colheitas das mais variadas espécies de frutas, tubérculos e hortaliças: cupuaçu, abiu, abacate, limão, biribá, araçá-boi, camu-camu, pupunha, umari, mari-mari, bacaba, castanha-da-amazônia, jamelão, abacaxi, graviola, manga, coco, açaí, banana, cajú, maracujá, pitanga, café, taperebá, cacau, acerola, marmeladinha, amora, mamão, jambo, ajiru, carambola, tucumã, só para citar algumas. Além de essências como andiroba, copaiba, sucuuba e de flores melíferas e poliníferas como o amor-agarradinho, a melissa, a damiana e outras.

Em diversos pontos da “Floresta de Alimentos”, localizamos colméias. Cultivamos em colméias as feras que nelas se adaptam e protegemos todas as demais espécies de abelhas da região. Já temos 10 espécies em colméias. 

Através desta experiência buscamos compartilhar técnicas acessíveis às comunidades, para uma agricultura auto-sustentável e que retribua a generozidade da Floresta Amazônica. Desde 1997 acolhemos pessoas de língua portuguesa, espanhola, Yanomami, Makuxi, Apurinã, Baré, Tukano, Baniwa, Embera e Katio, Madiha, Cambeba, Kapeba, Tikuna, Munduruku, Wai Wai, Wapitxana e Deni. Ao todo pessoas de 34 povos indígenas e agricultores de mais de 70 comunidades já passaram por cursos dados pela família.



Casa da Cultura do Urubuí.
Egydio Schwade

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Carta de Doroti ao Amigo Beto

Vida e História de Doroti Schwade: Texto 10

Rio branco, 29 novembro de 1977

Olá Beto,

Há muito que queria me comunicar contigo. Mesmo antes de te conhecer pessoalmente. Sei lá, uma vontade de agradecer por tu existires. Agradecer a esperança que tu representas. A única vantagem que um sistema repressivo pode trazer, é justamente tornar pleno aquele compromisso com a humanidade que torna a pessoa sábia e santa. Sei lá, eu só queria dizer que sou feliz em te conhecer. Tenho muitas destas oportunidades e acho que isto é uma graça. Pelo simples fato de ter optado pelo povo oprimido acabei tendo oportunidade de conhecer gente como Pedro Casaldáliga, Pe. Afonso De Caro e tantos outros. Com todos tenho aprendido muito e renovado grandemente minha esperança na Utopia. Quanto mais mergulho na vida aniquilada do povo, principalmente o amazônida e especialmente o índio, tanto mais acredito na fraternidade e na “loucura” do Evangelho.

É verdade que às vezes tenho vontade de me revoltar e me revolto. Tenho vontade de gritar contra estas mil formas de injustiça que aniquila a tantos. O que mais me dói é ver que este povo não é “povo”. Tiraram-lhe o direito de ser. Tornaram-no “lobo” de seu irmão. Quando vejo este seringueiro, castanheiro, sorveiro sendo instrumento de desagregação da vida comunitária do índio, este “civilizado” que é ocidental apenas pela ideologia (que apenas pela ideologia faz parte do mundo ocidental). Porque por estes rios o povo vive à margem da margem de qualquer benefício tecnológico, científico e cultural. A própria cultura que ele trouxe do Nordeste foi liquidada pela solidão e desespero a que foi atirado. Só restou o preconceito contra o índio. O índio lhe pareceu uma fera a mais contra quem tinha que lutar. E a Igreja neste processo todo, em vez de ser “Bom Pastor” que busca a ovelha em perigo e a junta às demais, serviu mais de “vaqueiro” que de vez em quando “marca” o rebanho para o patrão. Marca com o sacramento e domestica com os freios “morais”. (desobriga).

Desculpe se estou sendo severa demais no julgamento que faço da igreja da Amazônia. Talvez tenha sido de fato severa. Houve muitos padres e religiosos que se sacrificaram levando remédio para o homem daqui. Tentando sarar-lhe as feridas. Sim, houve muitos desses. Pena que eles deixavam os “lobos” impunes e soltos. Não identificavam e nem alertavam as “ovelhas” sobre os “lobos” cada vez mais vorazes.

Felizmente as coisas estão mudando pela própria força da História. Talvez pelo fracasso, pela falência histórica de nossa Pastoral nesta região. Não sei. Muitas igrejas estão tentando modificar esta pastoral, outros resistem. Acre e Purus tem sido meu asilo e lugar de reabastecimento. Também por aí a gente encontra pessoas que mesmo isoladas tentam a todo o custo sacudir suas prelazias do marasmo da conivência e/ou omissão.

Gostaria de saber transmitir o que eu vi e senti por aí, principalmente o que vivenciei na maloca de índios Jamamadi. Foi como se eu tivesse sido marcada a brasa e um mundo de perguntas, angustias, perplexidade e revolta me tomaram o coração e continuam ardendo. Não consegui compreender todo o mistério da situação. Captei, sim, a tensão histórica de um povo e sofri com eles esta tensão. Tive a impressão que capitalizei em alguns dias todo o sofrimento do povo índio que passou, passa e passará por situações semelhantes. Beto, se tu puderes me ajudar a refletir a respeito do que vou tentar comunicar aqui eu ficaria grata. Não importa que demore. Se não puderes também não importa, mas senti necessidade de te transmitir o que vi. Senti necessidade de tentar te comunicar a experiência que vivi.

Estava fazendo levantamento dos grupos indígenas na região do Médio Rio Purus. Um padre se ofereceu para ir comigo, pois achava que seria muito “perigoso” eu ir sozinha.

Doroti.


Obs.: Esta carta encaminhava um relotório que será postado em breve, loque que os rascunhos manuscritos de Doro tiverem sido transcrito.

domingo, 14 de agosto de 2011

A Economia Invisível da Amazônia

Há milênios centenas de povos habitam a Amazônia. Durante a história (uns diriam pré-história) os indígenas estabeleceram sistemas econômicos baseados no manejo dos ecossistemas naturais e em cultivo capazes não apenas de coexistirem com ecossistemas naturais, como também de enriquecê-los. Aliado a isto desenvolveram redes de intercâmbios de produtos bastante sofisticados, como o Manako praticado por diversos povos dos Rios Purus e Juruá. Estes sistemas econômicos foram capazes de gerar grande abundância de produtos. Fr. Carvajal, cronista da expedição de Orellana, ao chegar numa aldeia no ano de 1540 escreve: “grande quantidade de carne, peixes e biscoitos, tudo com tanta abundância que era suficiente para alimentar uma força expedicionária de mil homens durante um ano inteiro” (CARVAJAL. Descubrimiento del Rio de las Amazonas).

Essa diversidade foi possível graças ao desenvolvimento de tecnologias de manejo e cultivo. Centenas, talvez milhares de espécies vegetais foram domesticadas, entre elas a macaxeira, o milho, o tomate, a batata, a pupunha e tantas outras. Também se criou tecnologia de utilização de diversos outros produtos como o açaí, a bacaba, o buriti e a copaiba.

Com o processo da conquista européia esta fartura parece ter deixado de existir gradativamente. Período após período menos registros se fez sobre tal produção. Os registros da economia da Amazônia foram então se estabelecendo com base nos valores das exportações de produtos que tinham um “bum” e depois decaiam. Pouco se sabe sobre como as populações locais sobreviviam quando não estavam sendo exploradas por sistemas de produção para exportação dos produtos.

Alguém que se dedique a verificar com cuidado os dados históricos poderá verificar que existe um paradoxo entre os dados econômicos oficiais e a situação de bem estar da maioria da população amazônica: Quanto maior a economia, maior a fome e a degradação social.

Na atualidade, andando pelos recantos da Amazônia, se nota muitas zonas de bastante miséria. Mas também é possível encontrar muitos lugares onde a população consegue gerar abundancia de alimentos e de alegrias, independente de estarem ligadas a mercados externos.

Extremamente acuadas pela pressão do capitalismo, as formas de produção que deram origem já naqueles tempos a tamanha fartura continuam a existir. O problema de sua invisibilidade é primeiro um desinteresse político de quem vê a ecomonia apenas como crematística. Crematística é arte de fazer dinheiro. “Como arte de adquirir, a economia se limita à obtenção dos bens necessários à vida e úteis a família ou ao Estado. ‘A verdadeira riqueza consiste nesses [leia-se nos] valores-de-uso’ [...]. A crematística distingue-se da economia, por ser a circulação para ela a fonte de riqueza”. (Aristóteles apud MARX, O Capital, Livro I – O Processo de Produção do Capital). Um segundo fator é a falta de mecanismos e instrumentos de mensuração destas economias.

O fato dos economistas e dos governos fecharem os olhos para estas possibilidades de produção fora do mercado de exportação e de não enxergarem as pessoas do interior do Estado como sujeitos e como gente com direitos, continua ampliando a miséria e a fome.

Essa situação precisa mudar. A visão meramente crematística não dá conta de atender as necessidades da sociedade como um todo e, em inúmeros casos, tira o direito de populações inteiras de acesso a condições básicas de vida digna. Além disto, tem causado profundos desequilíbrios ambientais que ameaçam inclusive a existência da espécie humana no planeta. “Não é possível que a economia vá bem se as pessoas estão mal e se a ecologia está ruim” (ALIER, Da Economia Ecológica ao Ecologismo Popular).

Diante da diversidade Amazônica devemos, em especial, os economistas, ser criativos a ponto de criar formas de perceber e apontar caminhos que garantam segurança e esperança para um futuro bonito, alegre e de fartura.


Maurício Adu Schwade
Economista
Casa da Cultura do Urubuí

domingo, 7 de agosto de 2011

Audiência Pública Debate Solução para Conflitos Agrários em Presidente Figueiredo

Tendo como motivo primeiro apontar soluções para o conflito fundiário que envolve a comunidade Terra Santa, situada a leste da BR 174, quilometro 152, 232ª Reunião da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo. Realizada no dia 27 de julho deste ano na câmara municipal de Presidente Figueiredo, foi momento importante de debate sobre os problemas acarretados pelos títulos emitidos de forma fraudulenta pelo governo do Amazonas na década de 1970 e que afetam milhares de famílias de agricultores.
A audiência foi conduzida pelo Desembargador Gercino Jose da Silva Filho, Ouvidor Agrário Nacional e Presidente da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo. Contou com a presença de representantes de diversas entidades, entre elas o Ministério Público Federal, Iteam, Incra, Terra Legal, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Presidente Figueiredo, Casa da Cultura do Urubui, Câmara Municipal de Presidente Figueiredo, entre outros. Os agricultores da comunidade Terra Santa, que vem denunciando há vários meses ameaças, representados pelo presidente da comunidade, Sr. Valdomiro Machado, estiveram presentes e puderam relatar sua história de mais de 10 anos da comunidade. Estes agricultores estão sob ameaça de despejo por força de mandato de reintegração de posse expedida pelo Juiz Roger Paz de Almeida, que esteve presente a audiência, em favor de João Brandão, também presente, que se apresenta como detentor de título de propriedade de uma área de 3000 hectares a partir do ano de 2008, onde se encontram as 28 famílias da Comunidade Terra Santa há 11 anos. 
Durante a audiência tanto os agricultores, quanto as entidades que os apóiam expuseram mais uma vez a necessidade de oficializar a nulidade dos títulos podres emitidos no governo Danilo Areosa em favor de empresários paulistas. Esses títulos foram sendo passados para frente sempre de forma obscura e é com base em um deles que se ameaça de despejo os comunitários da Terra Santa.
No total estes títulos correspondem a uma área de mais de dois milhões de hectares em cinco municípios do Estado de Amazonas: Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva, Itacoatiara, Silves e Itapiranga. Trata-se, certamente de um dos maiores casos de grilagem de terra do País.
Só no município de Presidente Figueiredo mais de duas mil famílias estão impedidas de terem título de propriedade de suas posses por estarem sobre terras que correspondem aos chamados “títulos dos paulistas”. Muitas destas famílias de agricultores já ocupam estas áreas há mais de 30 anos. O discurso de Egydio Schwade, membro da Casa da Cultura do Urubuí, preparado para esta audiência trouxe um histórico do problema (O conteúdo do discurso está em
http://urubui.blogspot.com/2011/07/conflio-agrario-no-municipio-de.html).
A maioria destes títulos podres estaria hoje em mãos da empresa Precious Woods (Mil Madeireiras). Se legais estes títulos fariam desta multinacional do ramo de madeiras uma das maiores, se não a maior, proprietária de terras do Brasil.
Em relação ao conflito na comunidade Terra Santa, a audiência terminou com um acordo onde se encaminhou o pedido de suspensão temporária por 90 dias da ordem de reintegração de posse até que o ITEAM e o INCRA possam fazer uma auditoria na área e se procure uma solução imediata para o caso, independente de que se encaminhe o pedido de cancelamento do título anterior de origem fraudulenta.


Por Mauricio Adu Schwade
Casa da Cultura do Urubuí, 07 de agost de 2011

Vida e Histórias de Doroti Schwade: Texto 9

As Sementes de Doroti Müller Schwade* 


A indigenista, agroecologista e militante socioambiental Doroti Alice Mueller Schwade, com sua sensibilidade e determinação, é uma das grandes construtoras de conhecimento para a sustentabilidade da Amazônia. ‘A índia-branca’ Doroti, nasceu em Blumenau, SC, e veio para a Amazônia nos anos 70 como uma jovem e idealista para lutar pela emancipação dos povos indígenas. Posteriormente, casou-se com o também idealista indigenista Egydio Schwade e, juntos, semeiam alternativas para a soberania dos povos e para o respeito a todas as formas de vida da Amazônia.
As sementes de amor e de sustentabilidade de Doroti Mueller Schwade não são contaminadas com agrotóxicos, herbicidas, inseticidas, não são transgênicas e nem precisam ser semeadas com adubos químicos. As sementes de Doroti valorizam a vida, a soberania econômica e política dos povos, a força das mulheres e o meio ambiente e são regadas com a integração da sabedoria tradicional e popular e do conhecimento científico e muito amor.
Doroti transita com completo domínio entre o saber científico e o popular, sabe fazer uma inteligente integração entre a ciência libertadora e as práticas tradicionais dos povos da Amazônia e é uma incansável educadora e construtora participativa de conhecimentos para a sustentabilidade. Doroti é uma grande experimentadora agroecóloga compartilha seus conhecimentos com as comunidades amazônidas, com os movimentos sociais e com todos os órgãos de pesquisa, extensão e ensino que buscam a sustentabilidade. Sua filosofia de uso dos recursos naturais, de organização social e comunitária e de economia solidária e suas práticas agroecológicas e de criação de abelhas nativas no sítio da família Schwade-Müller em Presidente Figueiredo fazem parte de todos os cursos da Embrapa, do INPA, da UFAM, IFAM e UEA que tratam da sustentabilidade rural.
Doroti nos ensina que a agricultura deve produzir vida e não a morte dos igarapés, a infertilidade do solo, o desmatamento das florestas, a perda do conhecimento tradicional e alimentos que degradam a saúde humana. Ensina-nos que a verdadeira economia solidaria começa com a mesa farta, diversa e saudável de nossas famílias e de nossos vizinhos. Doroti nos alerta que povos soberanos se alimentam de seus produtos regionais, realizam agricultura sem dependência de agrotóxicos e adubos químicos, usam sementes que não perderam a capacidade de se multiplicar anualmente para enriquecer a indústria agroquímica e integram conhecimentos científicos e tradicionais em prol da qualidade de vida. Doroti demonstra que apesar de sua dedicada militância e magistério em prol de um mundo melhor, o principal papel social que homens e mulheres podem desempenhar para este fim é formar crianças éticas, humanitárias que valorizem a diversidade social e todas as formas de vida.
Doroti e Egydio Schwade constituíram uma família com cinco maravilhosos filhos, todos cidadãos que sabem amar e respeitar e que constituem um exemplo de vida para a transformação social e a qualidade de vida para sua comunidade e para a Amazônia.
Hoje, membros dos movimentos socioambientais, indígenas, feministas, agroecologistas, das pastorais sociais, os que constroem uma ciência libertadora e os cidadãos éticos estão de luto pela passagem de Doroti Müller Schwade. No entanto, todos temos muito a saudar e a agradecer pelo exemplo de vida e pela constante luta de Doroti em prol de um mundo melhor.
As homenagens estão sendo realizadas na Igreja de sua comunidade em Presidente Figueiredo, AM, cujo altar consiste de uma enorme pintura do rosto do lendário cacique Maroaga com lágrimas escorrendo devido à construção da BR 174 e da hidrelétrica de Balbina dentro do território Waimiri-Atroari, o que quase causou a extinção do combativo povo Kiña. Os Waimiri-Atroari e os demais povos da Amazônia perderam hoje uma grande aliada contra os impactos de obras faraônicas como a BR 174, BR 319, a hidrelétrica de Balbina, as hidrelétricas do Madeira e as do Xingu.
Consola-nos saber que entre as mais belas sementes de Doroti continuará frutificando entre nós sua maravilhosa família cujos filhos, Ajuri, Adu, Mayá, Maiká, Luiz e o queridíssimo companheiro Egydio Schwade continuarão exercendo dignamente suas cidadanias e nos mostrando que uma outra Amazônia é possível.

Elisa Wandelli
Bióloga, Pesquisadora da Embrapa Amazônia Ocidental

*Texto revisado pela família de Doroti e originalmente publicado no Adital e NCPAL