2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos Durante a Ditadura Militar

Que vivam os Povos Indígenas do Brasil! Que vivam Bem!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Mais um golpe contra os povos indígenas

NOTA PÚBLICA


OPAN considera um risco ver parlamentares que incentivam zoneamento ruralista e exclusão de terras indígenas criarem grupo para rever demarcações.

Cuiabá, MT – A Operação Amazônia Nativa (OPAN), organização que apoia os direitos dos povos indígenas, vem a público manifestar preocupação com a notícia que a Assembleia Legislativa e o governo de Mato Grosso vão formar um grupo de trabalho para avaliar propostas de criação de terras indígenas e atos pretéritos de homologação. As ressalvas referem-se aos interesses dos legisladores envolvidos na iniciativa, no momento em que eles próprios encaminham projetos extremamente nocivos aos povos, como o a lei de zoneamento socioeconômico e ecológico que elimina 14 terras indígenas do mapa e o recrudescimento de grandes desmatamentos motivados pela expectativa de flexibilização do Código Florestal Brasileiro.

De acordo com o coordenador geral da OPAN, Ivar Busatto, ao propor a revisão das demarcações de terras indígenas, os parlamentares parecem legislar a favor de um lado só. “Eu quero ver que deputado vai se empenhar em rever as diminuições realizadas sem respaldo técnico em áreas como a Terra Indígena Jarudore, no município de Poxoréu, que de 100 mil hectares hoje tem menos de cinco mil, com o agravante de que os indígenas se sentem presos em sua área pobre em recursos naturais por causa da hostilidade do entorno. Ou a Terra Indígena Teresa Cristina, em Santo Antônio de Leverger, também do povo Bororo, que tinha 65 mil hectares e foi reduzida à metade”, exemplifica.

A demarcação de terras indígenas segue o trâmite legal que abrange a realização de laudos antropológicos e estudos aprofundados, incluindo também a possibilidade de contestação da sociedade durante o processo. Nesse sentido, a criação de um grupo de trabalho formado por parlamentares para questionar as demarcações não qualifica o debate, na medida em que o politiza sem avaliações técnicas legítimas que garantam o respeito à legislação federal.

Uma das principais motivações para a revisão das demarcações em Mato Grosso tem a ver com as pressões de fazendeiros para permanecer na Terra Indigena Marãiwatsédé, do povo Xavante, apesar da determinação judicial de sua retirada. Isso fere mais uma vez a Constituição, que veda a remoção de indígenas de suas terras, à exceção de risco de epidemia ou catástrofes que ponham em risco sua população ou a soberania do país, e mesmo assim com o aval do Congresso Nacional. A legislação garante ainda que os indígenas possam
voltar ao seu território assim que cessem os riscos. “Em Maraiwatsede, eles foram retirados à força e ainda estão sendo contestados ao tentarem retornar”, lembra Busatto.

Alheio a isso, o deputado federal Homero Pereira (PR/MT), por exemplo, é autor de pelo menos três projetos de lei na Câmara Federal que preveem a exclusão sumária de terras indígenas em Mato Grosso. Outro perigoso elemento é o precedente que a revisão das demarcações pode abrir para qualquer área salvaguardando sempre os interesses não indígenas.

“Se considerado o ponto de vista dos que só enxergam um modelo de desenvolvimento econômico possível neste estado e desconsideram os territórios tradicionais indígenas, com todos os elementos fundamentais à sobrevivência física e espiritual de cada povo, a maioria das terras indígenas “soa um abuso”. No entanto, o artigo 231 da Constituição Federal é claro ao estabelecer que as terras tradicionalmente ocupadas são “as terras por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis a preservação dos recursos naturais necessárias a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural segundo seus usos, costumes e tradições”.

Além disso, a OPAN defende que abuso muito maior é o evidente incentivo ao conflito representado pela camuflagem de terras indígenas na proposta do zoneamento do estado, da falta de disposição do governo para estabelecer parcerias a fim de garantir direitos indígenas como saúde, educação e infraestrutura, ou para reprimir pressões de desmatamento que atingem diretamente recursos naturais dentro e fora de terras indígenas, prejudicando crucialmente as condições de sobrevivência e reprodução cultural das 38 etnias que habitam Mato Grosso.

OPAN

A OPAN foi a primeira organização indigenista fundada no Brasil, em 1969. Atualmente suas equipes trabalham em parceria com povos indígenas do Amazonas e do Mato Grosso, desenvolvendo ações voltadas à garantia dos direitos dos povos, gestão territorial e busca de alternativas de geração de renda baseadas na conservação ambiental e na manutenção das culturas indígenas.

Contatos com imprensa

Andreia Fanzeres: +55 65 33222980 / 84765620
OPAN – Operação Amazônia Nativa

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Índios e Militares na Amazônia Brasileira

Nas Comunidades Indígenas do Rio Uaupés, a semana da pátria, não somente o 7 de setembro, é comemorada com muita festa. Ao longo de todo o mês de setembro se hasteia solenemente a bandeira verde e amarela e se recolhe com muito carinho ao fim do dia. É intrigante ver o enorme patriotismo existente na maioria das aldeias indígenas das fronteiras brasileiras. Intrigante porque se tratam de comunidades de povos que sobreviveram à formação do Estado Brasileiro e que sofreram na carne as piores atrocidades cometidas nesse país. E mais ainda pela forma espantosa, para não falar cruel, com que os militares tratam esses povos, pois são vistos por eles como perigosos a soberania nacional, o que justifica o aumento da danosa presença militar nas aldeias.

Tive a oportunidade de conviver com pessoas de diferentes povos indígenas e de conhecer dezenas de aldeias de Roraima, Amazonas, Pará e Mato Grosso, além de alguns povos da Venezuela. Aqui no Brasil constatei que, os Pelotões Especiais de Fronteira e outras instalações militares existentes, estão instalados dentro das aldeias indígenas e muitas vezes bem longe da linha de fronteira. Mesmo em rios pouco povoados, as bases estão literalmente dentro das aldeias.

Os militares, dezenas ou mesmo centenas de homens jovens, alguns recém saídos da puberdade, são agrupados longe de suas casas e encontram nesses espaços poucas possibilidades de satisfazerem suas necessidades culturais e seus instintos sexuais, somados a sede por viver sem limites a passageira juventude.

Parece redundante explicar o resultado desse contato, mas cada dia me surpreende mais a gravidade dos fatos. De cara é possível verificar o agravamento do alcoolismo, do uso de drogas pesadas e a introdução de DST’s, com efeitos nocivos para os dois lados em questão. A gravidez de jovens e meninas sem paternidade assumida e a prostituição são cada dia mais freqüentes nas aldeias e comunidades onde se instalam os quartéis.

No caso específico dos povos do rio Uaupés, de família lingüística Tukano, a coisa é ainda mais grave, pois são povos de cultura patrilinear, ou seja, a identidade étnica é determinada pela identidade paterna. Mesmo que uma pessoa seja criada em comunidade indígena, falante de língua indígena, filha de mulher indígena, criada por um pai adotivo indígena, se o pai biológico não é indígena essa criança nunca será reconhecida como indígena, ainda que não tenha sequer conhecido o pai biológico.

Mais do que isso, há uma silenciosa crise pela falta de mulheres. Isso porque muitas moças se encantam com “os de fora” dificultando a união de casais das comunidades. Ou ainda, pela “adoção” de meninas que se tornam babás ou domésticas e acompanham as famílias dos oficiais transferidos de posto, atraídas por promessas de bons estudos.

Nas comunidades Yanomami, onde as mulheres estão no centro dos principais conflitos, já foram registrados vários problemas graves com os militares por conta de relações sexuais com moças e meninas, principalmente em Maturacá. O Distrito de Maturacá também foi palco de um dos mais impressionantes conflitos entre militares e indígenas, quando os Yanomami, revoltados com a abusiva prisão de um jovem líder em sua própria residência, dominaram o Pelotão Especial de Fronteira inteiro até que os militares libertaram o rapaz. Este fato enfraqueceu as relações com os militares que não são mais bem-vindos nas comunidades.

Em um movimento nem sempre consciente, os militares, para serem mais bem aceitos nas comunidades e pela opinião pública em geral, ofertam eventualmente atendimentos médicos e outros serviços que na verdade são direitos constitucionais dos quais as comunidades estão excluídas. Mesmo assim esses atendimentos não são constantes e muitas vezes os oficiais restringem o acesso ao atendimento por meses.

Ao perceberem os prejuízos, algumas pessoas e comunidades organizam como podem suas resistências, seja se afastando dos pelotões, seja restringindo a circulação de soldados em certos ambientes comunitários.
Ainda assim os problemas persistem e em muitos casos se agravam. Primeiramente porque vão se criando contradições dentro das comunidades, especialmente por alguma dependência econômica ou social ligada a presença militar. A principal delas se estabelece com as relações entre militares e comerciantes locais. Os comerciantes em geral defendem a presença militar por preverem perdas comerciais com sua retirada, tornando difícil o diagnóstico e solução do problema. E mesmo quando o problema é percebido com clareza pela comunidade e, desejosos de solução tomam partido, ainda devem suportar os sussurros preconceituosos de resíduos históricos, tais como a mentalidade de generais da reserva e de setores reacionários da sociedade em geral. Um exemplo vivo é o Gal. Augusto Heleno, que prega a militarização ou o loteamento privado dos territórios indígenas de fronteira, alegando riscos à soberania nacional.


Maiká Schwade
Casa da Cultura do Urubuí, 28 de setembro de 2011

terça-feira, 27 de setembro de 2011

POR QUE UMA POLÍTICA DE AUTOSUSTENTAÇÃO?

Obs.: Este texto foi sugerido ao Conselho Indigenista Missionário - CIMI - em 1996 como orientação para sua política de Autosustentação das comunidades indígenas.


A importância de se desenvolver uma política de autosustentação no momento que vivem os povos indígenas brasileiros e do CIMI, emana de variadas situações, preocupações e aspirações local, regional, nacional e até universalmente sentidas, tais como: 

1. Da preocupação pela sobrevivência dos povos indígenas ameaçadas principalmente, pelas diversas formas de depredação dos recursos alimentícios em muitos dos seus territórios. 

2. Das preocupações em torno do meio ambiente: preservação e reconstituição da variedade e da abundância. 

3. Da necessidade de animar e reanimar os povos indígenas na sua política tradicional de produzir com abundancia, variedade e voltados para culturas locais, visando a melhoria da qualidade dos alimentos para a saúde, alegria e autonomia das comunidades. 

4. Da auto-sustentação dos povos indígenas como único caminho para a preservação de sua cultura. 

5. Da busca de autonomia sempre maior das comunidades frente ao Estado, procurando sustento, segurança e abrigo na terra. 

6. Da superação da ânsia de algumas organizações e lideranças indígenas mais preocupadas em salvar financiamentos e aparentar produção, do que em animar o modelo indígena, do amor à terra, à variedade da alimentação em vista de mais saúde, festa e alegria comunitárias. 

7. Duma política correta da Articulação Nacional de Auto-sustentação – ANAS, capaz de animar a criatividade para a defesa da terra indígena, oferecendo uma variedade sempre maior de instrumentos de ocupação e presença na terra. 

8. Dum meio de recuperar e modernizar a histórica experiência de vida dos povos indígenas, no que tange principalmente a uma alternativa para os falidos sistemas de vida oferecidos pelo Estado Ocidental. 

9. Da existência de variadas preocupações, experiências vividas e já em andamento em diversas partes do mundo que vêem na auto-sustentação e na volta à terra o meio mais eficaz para vencer as tradicionais amarras do Estado (bancos, dinheiro, legislação escrita, burocracia, milícias...). A ANAS pode se relaciona com tais experiências e levá-las ao conhecimento dos companheiros do CIMI e dos povos indígenas. 

10. Da própria crise financeira do CIMI que pode ter, a partir da ANAS, uma nova discussão e consequentemente novas perspectivas de tratamento. Algumas discussões que irão surgir: 

- Emprego ou militância em vista de mudanças de mentalidade? 

- Volta à terra ou continuar a desenvolver o processo de burocratização ? 

- Aldeia ou metrópole? 

- Agricultura ou emprego? 

- O que fortalece mais os povos indígenas? 

11. Da ANAS como ambiente apropriado para a discussão correta da questão das patentes, propriedade intelectual, etc.. 

12. Duma forma de barrar a política da FUNAI que em diversas regiões do país vem estimulando a depredação dos recursos naturais das áreas indígenas. 

13. Do estabelecimento de novas perspectivas de diálogo e aproximação com as forças mais sadias do movimento popular rural, tais como o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, que também estão na busca de uma política de resistência contra a ocupação capitalista da terra ou da produção em vista do mercado. 

14. Da alternativa para a terceirização da economia que se contrapõe à visão do mundo por parte dos índios. 

15. Da recuperação e da animação das experiências acumuladas pelas equipes locais ou de base. 

16. Da exigência de se formular um desenvolvimento a favor da vida. 

17. Da aspiração generalizada pela superação da monocultura, depredadora do meio ambiente e instrumento de depauperamento do solo e de dominação das elites. 


Egydio Schwade 
Casa da Cultura do Urubuí. 1996 


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Agricultura e Sociobiodiversidade Amazônica

Quando discutimos “produção familiar agrícola no Estado do Amazonas” é salutar recordar a experiência humana já vivida nesta parte do planeta antes da sujeição ao modelo de organização política estatal.
A sobrevivência da humanidade está hoje ameaçada pela violência física e cultural que a terra sofre e pela depredação dos recursos alimentícios originários ou próprios a cada região do planeta. Todos os viventes do planeta dependem de uma mudança do paradigma político e do conceito de economia dos Estados Nacionais e, principalmente, do reconhecimento de economias distintas da “crematística” praticada por esses Estados.
Muitos povos, comunidades, organizações e lideranças, vivem hoje preocupados atrás de financiamentos e de produtos de mercado para sustentar necessidades artificiais e ficções criadas ao longo da História humana. E nesta ânsia se esquecem da alimentação e da saúde das pessoas e da vida em geral, esquecem-se da preservação da natureza, da cultura e da economia da reciprocidade, fundamentos da abundância, da autonomia e do bem-viver.
Quando o primeiro bando de espanhóis sob o comando de Orellana desceu o rio Amazonas em 1540, mais de 500 gerações já haviam vivido uma consciente adaptação ao ambiente desta terra. A sua vida se orientava, sabiamente, na perspectiva de um futuro ilimitado e comum a toda a vida na terra: humana, animal e vegetal. A natureza não era entendida apenas como o espaço antropocêntrico, mas como espaço comum de todos os viventes, todos igualmente importantes. Não lhes ocorria sentirem-se donos absolutos de tudo a ponto de poderem a seu bel-prazer, capricho ou interesse, destruir ou fazer comércio com a criação.
Milhares de pequenas comunidades espalhavam-se pelo continente, se auto-sustentavam por meio de uma economia de reciprocidade. Grandes roçados cercavam as comunidades. E o que neles faltava era colhido da floresta, dos campos e das águas comunitárias. Quando em algum local a presença humana encolhia a vida animal e vegetal, as comunidades transferiam a sua sede para que a vegetação nativa e os animais se pudessem reconstituir no vigor original.
As visitas de amigos e de parentes trazia ao seio das comunidades, uma mensagem de carinho, de esperança, de bem-estar e de fartura a partir dos frutos da terra, principalmente, de novos alimentos que domesticavam ou descobriam na floresta. Assim, a mensagem das aldeias, de perto e de longe, vinha acompanhada com o gesto da mão cheia de vida, pela permuta de conhecimentos, saberes, técnicas e de espécies vegetais. Desta forma, os povos pré-colombianos se moviam garantindo espaço igual, não só para os humanos, mas para todos os seres vivos, do presente e do futuro.
As estórias que narram a origem do mundo, em todos os biomas americanos, falam do deslumbramento das pessoas diante da beleza da terra e diante da variedade de animais e vegetais. E as pessoas comportavam-se como chegantes e não como donas de tudo e se confundiam muitas vezes, propositadamente, com animais e plantas.
Para os povos indígenas a beleza, a variedade e a abundância da terra não podiam acabar jamais e deveriam ser enriquecidas pela presença humana. A Mãe-terra era vista numa amplidão e temporalidade infinitas, cujo habitat o homem procurava melhorar sempre, principalmente, pela fartura de alimentos. Assim, quem tivesse visitado a Amazônia 9.000 anos a.C. e bem depois tivesse acompanhado a expedição de Orellana em 1.540, se teria admirado muito com as melhorias introduzidas e com os alimentos novos criados, tudo sem causar impacto negativo na dinâmica do ambiente, apesar do aumento demográfico sensível que possivelmente tenha ocorrido.
Toda a cultura espiritual dos povos indígenas reflete a preocupação pela manutenção dessa variedade, beleza e abundância como patrimônio de todos. Lendas, como a do Curupira, educavam grandes e pequenos na filosofia preservacionista. As comunidades zelavam pelas fontes, pela diversidade e pela abundância de proteínas e vitaminas, animais e vegetais.
É preciso que os cidadãos retornem à terra e que os agricultores e as agricultoras voltem a acreditar em sua própria ciência e experiência e que todos abandonem a “crematística”, a economia que tem como foco principal o dinheiro. Demonstrar e provar que a experiência indígena foi e é boa não só para eles, mas para toda humanidade e que trocar e difundir gratuitamente sementes e mudas, conhecimentos e técnicas é salutar para o planeta.

Egydio Schwade
Casa da Cultura do urubuí, 15 de setembro de 2011.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Povos Tradicionais e Desafios Socioeconômicos


Nos trabalhos com povos indígenas e outras populações tradicionais, são freqüentes as argumentações sobre a necessidade de ações em torno da “auto-sustentação” e/ou “geração de renda”. Da parte das entidades de apoio e assistência a justificativa normalmente é econômica em sentido estrito, ou seja, frente aos novos desafios que a conjuntura apresenta, novas necessidades e desestruturação da economia tradicional, faz-se necessário encontrar alternativas para a melhoria das condições de subsistência. Este discurso é muitas vezes incorporado pelas populações tradicionais, no entanto é importante uma reflexão cuidadosa em busca de entender se a questão principal para as comunidades é realmente a necessidade de subsistir, a necessidade de adquirir bens.

O caso dos Manoki (Irantxe) pode ajudar nesta reflexão. Durante toda a década de 1990 a maioria dos jovens saía da Terra Indígena para trabalharem em lavouras de agricultura industrial do entorno de suas terras. Na tentativa de reverter esta situação entidades de apoio procuraram desenvolver projetos relacionados à geração de renda e auto-sustentação. Porém as transformações positivas na última década do ponto de vista econômico e de autonomia parecem ter muito mais a ver com a caminhada sócio-política recente dos Manoki que com aqueles projetos.

Os Manoki, no início do século XX, habitavam um território situado a noroeste do Estado do Mato Grosso. Estimativa do antropólogo Aluir Pacini (Laudo de Pericia Judicial. Processo 2005.36.00.000097-7. 1ª Vara da Justica Federal do Mato Grosso.Cuiabá, 2006), aponta que nesta época a população devia ser de aproximadamente 1200 pessoas. A oeste e a sul do território Manoki (pertencentes a uma família lingüística isolada) habitavam povos com idiomas da família lingüística Aruaki, hoje representados pelos povos Pareci e Enawene-Nawe, e a noroeste os Nambikwara (outra família lingüística isolada). A leste estavam os Tapayuna (do tronco Jê) e a norte os Rikbaktsa (do tronco Macro-Jê). Esse conjunto de povos formava um mosaico sócio-cultural complexo e articulado.

A exemplo do que ocorreu com centenas de povos indígenas da Amazônia e do Cerrado, o século XX foi trágico e determinante para a história dos Manoki. Seu território foi alcançado pelas frentes seringalistas na primeira década do século XX. Por volta de 1908 houve o massacre da população de uma aldeia, no córrego Tapuru, onde relatos dão conta de que sobreviveram apenas uma mulher e seu filho. A tragédia desses contatos se agravou com a introdução de doenças exóticas levando os Manoki a evitarem contatos com a sociedade nacional. Outra conseqüência do avanço da frente seringalista sobre os territórios indígenas foi o acirramento dos conflitos entre povos que eram forçados a adentrarem territórios anteriormente ocupados por outros grupos.

A partir daí da década de 1930, com a população reduzida e acometida por seguidas epidemias de sarampo, as comunidades Manoki começaram a se recolher para próximo da Missão Anchieta – MIA, de Utiariti. Neste processo a população decaiu para menos de 300 pessoas em 1947, segundo estimativa da MIA e , em 1974, a cifra mais baixa de 50 Manoki. Este quadro tendia a ser pior, não fosse a intervenção da Missão Anchieta e da FUNAI” (PACINI, 2006).

No final da década de 1960, sendo ainda numericamente poucos, os Irantxe resolveram se estabelecer numa localidade na margem esquerda do Rio Cravarí, periferia do seu território tradicional.

Entre os anos de 1969 e 1972 os primeiros três empreendimentos agropecuários se instalam na região com financiamento da SUDAM: as fazendas Cravarí, São Paulo Cravarí e Membeca. Na década de 1980 toda a região do Chapadão dos Parecis começa a ser alcançada pela frente agropecuária e madeireira. A população que chega com essa frente tem um ideal desenvolvimentista. Vêem o mundo indígena como atrasado, arcaico, e por vezes com temor. Por outro lado consideram os indígenas como uma população que pode ser incorporada como mão-de-obra ao que consideram o “verdadeiro trabalho, aquele que gera lucro”.

A partir de 1974, assembléias indígenas foram realizadas com o apoio de entidades como a Operação Amazônia Nativa (OPAN) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Diversos Irantxe participaram e apoiaram manifestações e lutas de outros povos. Neste período a articulação com outros povos era bastante intensa

Entre as décadas de 1980 e 1990 houve um período de crescentes dificuldades para os Irantxe em se articular com outros povos indígenas. Com pouco apoio externo era difícil estar presente nos movimentos indígenas mais amplos e de repercussão nacional. Localmente, apesar do aumento da rede rodoviária, os demais povos estavam menos acessíveis devido ao cerco de fazendas e lavouras.

Por volta do ano 2000 o risco de desaparecimento fisico da população havia acabado, porém os Irantxe ainda formavam uma população reduzida (em torno de 250 pessoas). Muitos antropólogos e indigenistas viam como inevitável sua morte cultural. Para estes, os Irantxe sobreviveriam no máximo como “índios genéricos”. A grande maioria da população não falava mais o idioma tradicional, principalmente a juventude. O processo de perda da língua tradicional foi desencadeada especialmente pelos casamentos inter-étnicos, realizados no contexto da vida na missão de Utiariti, que tornaram o português a língua comum entre cônjuges. Para os poucos casais intra-étnicos, ensinar o português para os filhos era uma forma de aumentar as possibilidades sociais, mas também de escapar do estigma de ser “índio brabo”. Muitas celebrações também pareciam ter desaparecido.

A terra Irantxe, agora reduzida a apenas 45.555,95ha, tornou-se uma ilha nativa cercada por um mar de lavouras em monocultura. Os vizinhos eram os fazendeiros. Os homens jovens saíam para trabalhar nas lavouras, principalmente nos serviços de sacaria (serviços braçais não especializados). De fora traziam cachaça, roupas, músicas, e algum alimento. Os velhos faziam suas roças, queixosos por falta de ajuda, mas ainda se configuravam como os principais fornecedores de alimento. As moças esperavam ansiosas pelos bailes, que quase sempre terminavam com muitos bêbados e freqüentes brigas.

A economia dos Irantxe nesse momento aliava elementos tradicionais, trabalho nas fazendas e projetos de apoio externo. Estes projetos eram concebidos como forma de interferir numa economia desestruturada, que necessitava de apoio para se libertar do trabalho nas lavouras monoculturais, danoso à cultura, à natureza e à saúde. No entanto, acabaram fracassando ou obtiveram resultados aquém das expectativas dos proponentes, sendo a maioria das atividades abandonadas tão logo cessava o acompanhamento externo, marcado pela presença de assessores.

Do final de 1999 para o início de 2000 surgem alguns elementos que foram importantes para a caminhada posterior dos Irantxe: a criação dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI’s) e a volta da presença de membros da OPAN junto aos Manoki, num projeto articulado ao apoio a outros povos da região, o “Projeto Kiwxi”. Este último previa ações nas áreas de economia e resgate cultural.

No âmbito do DSEI foi criado o Conselho Distrital de Saúde que permitia uma articulação dos Manoki com povos do entorno no tema comum da saúde. Foram criados também conselhos locais onde participavam Irantxe, Myky e Enawene-Nawe. Os eventos externos acabavam refletindo em reuniões e conversas internas, aquecendo debates políticos sobre a situação dos Manoki.

Quanto aos projetos no âmbito das alternativas de renda, a OPAN havia conseguido apoio para o financiamento de cursos e fomento a apicultura, fruticultura, criação de galinhas e horticultura. Da mesma forma que projetos anteriores, estas alternativas foram abandonadas pela maioria. Para a apicultura, a continuidade se deu por pessoas que utilizaram a produção de mel para fortalecer sua participação na vida da comunidade através da distribuição de um produto apreciado por todos, especialmente pelas crianças; e/ou pessoas que utilizavam o mel para fortalecer suas relações fora da aldeia, pois vendiam o mel quase sempre diretamente ao consumidor que, além do pagamento monetário, eram ou tornavam-se amigos e propagandistas da qualidade do mel “Manoki”. Para as outras atividades ocorreu mais ou menos o mesmo, embora normalmente muito mais associado ao gosto individual pela atividade. As pessoas que continuaram, notadamente não eram as mais ligadas à fazenda. Assim, apesar de posteriormente terem assumido importância na vida das comunidades, estas atividades não se constituíram em atividade de grande importância financeira, embora a apicultura demonstrasse grande potencial para tanto.

A redução na procura pelos trabalhos nas fazendas só iria ocorrer mais tarde, num processo que diz respeito muito mais a possibilidades e escolhas políticas e sociais do que propriamente econômicas.

Outras circunstâncias que puseram os Manoki em contato com comunidades de povos distintos foram sua participação em intercâmbios e os cursos para formação de professores indígenas que se ampliaram. Para os jovens a participação nas olimpíadas indígenas a partir de 2003 é relatada como importante para estimular a busca em aprender a tradição do povo, já que outros povos presentes sempre mostravam com orgulho suas tradições e os Manoki ficavam acanhados por dependerem de levar os velhos.

Percebendo de alguma forma a situação crítica em que se encontravam, com certo descrédito externo quanto à continuidade cultural do povo, e mesmo incertezas da própria comunidade, iniciou-se um debate interno sobre os rumos do povo. A partir desses debates ganhou força um movimento de re-avivamento cultural e re-significação de elementos da cultura.

Um importante debate que surgiu na ocasião ocorreu a respeito da autodenominação. Os Irantxe tinham contato com outros povos que eram conhecidos por nomes que eles próprios se atribuíam. Um exemplo próximo é os Enawene-Nawe, que quando dos primeiros contatos foram chamados de Salumã e depois acabaram sendo conhecidos por um nome mais próximo do que seria uma autodenominação. Assumir uma autodenominação parecia ser importante para marcar esse momento onde os Irantxe decidiam reforçar sua identidade. Analisando as possibilidades chegou-se ao termo Manoki. O significado do termo manoki é bastante complexo e é certo que não era propriamente uma autodenominação, mesmo porque os Irantxe não tinham este conceito explicitado em sua língua. No entanto havia uma particularidade no conceito implícito neste vocábulo que acabou sendo determinante na sua adoção como autodenominação: só pode assumir a posição de manoki quem é desta cultura. Manoki, em seu sentido original, designa um visitante. Porém não qualquer visitante. É manoki o visitante que compartilha a mesma cultura.

Por outro lado, existia a vontade da reaproximação com o grupo conhecido como Myky, que pelo contexto histórico havia ficado distante. O termo Manoki, ao mesmo tempo em que engloba os dois grupos, não anula a identidade de nenhum.

Essa autodenominação é acima de tudo uma construção política dos Irantxe, agora também Manoki. Entre os propósitos políticos dos Manoki estavam o de afirmar sua existência e sua vontade de permanecer como identidade única e distinta, como povo indígena singular. Estava a vontade de se reaproximarem dos Myky. A vontade de animarem a retomada e re-significação de elementos culturais, dos quais o próprio nome Manoki é um exemplo.

Simultaneamente ao processo de surgimento da autodenominação Manoki, diversos processos ocorreram e somaram-se na reafirmação e reforço da auto-estima desse povo. No campo da luta pelo território tradicional, foi constituído um Grupo de Trabalho (GT) da FUNAI para realizar o estudo antropológico e os Manoki passaram a visitar com alguma freqüência este território para fazer caçadas e apresentar, aos jovens, sítios importantes.

Neste período os Irantxe construíram a primeira casa tradicional depois de um período de aproximadamente 40 anos. Esse movimento começou a envolver muitos jovens que, por vezes, eram os mais animados. Muitos outros eventos tradicionais ocorreram posteriormente.

A posição de peão nas fazendas, que já por algum tempo vinha sendo uma forma de interagir socialmente, perdeu importância simbólica e social e passou a ser internamente questionada, em parte pelo papel subalterno que os Manoki ocupavam. A compreensão de que o sentido dos trabalhos nas fazendas é motivado por processos sociais mais que por necessidades econômicas é fundamental e é confirmada por depoimentos de jovens Manoki que hoje, depois de terem abandonado o trabalho nas lavouras do entorno de sua terra, falam que não tinham necessidade de trabalhar na fazenda, mas que iam porque lá conversavam com outras pessoas, assistiam televisão, dirigiam trator, etc.

É evidente que a motivação não é apenas social. O aspecto econômico estava presente em maior ou menor grau dependendo da situação das pessoas. Porém, a escolha pelo trabalho nas fazendas não se dá a partir do parâmetro do custo de oportunidade financeira, mas pelo custo de oportunidade social. Ou seja, a atividade escolhida não é aquela que paga melhor, e sim aquela que apresenta mais oportunidades de sociabilização.

No contexto Irantxe, onde grande parte do universo social foi desfeito pela drástica redução demográfica e pelo isolamento em relação a outros grupos, e em que os vizinhos mais próximos são peões e patrões em fazendas e lavouras com os quais o único caminho de acesso é via prestação de serviços, é compreensível que as pessoas que podem se submetam a esta situação. O recebimento de pagamento financeiro vem muitas vezes quase como uma obrigação e tende a ser empregado também como instrumento de promoção de acontecimentos sociais. Para os jovens Manoki se utilizava prioritariamente na compra de bebidas alcoólicas, no financiamento de bailes e torneios de futebol e na compra de objetos simbolicamente importantes para a identificação com o universo não indígena.

A partir do momento que o quantitativo demográfico possibilita o aquecimento da vida social interna, que se inicia um processo de intensificação de atividades relacionadas à identidade indígena e que os Manoki começam a ter a oportunidade de se relacionarem com outros grupos externos, o trabalho nas fazendas começou a reduzir. Os símbolos relacionados à fazenda são agora questionados. E é o que acontece com a bebida alcoólica que começou a combatida de forma mais explicita pelos jovens a partir de 2003. Hoje os casos de alcoolismo entre jovens com menos de 25 anos são pouco freqüentes.

O processo de diminuição dos trabalhos nas fazendas se inicia neste momento impulsionado não pelo aparecimento de alternativas econômicas internas, mais pelas novas possibilidades sociais que colaboram para o afloramento de um olhar critico sobre as relações com a fazenda.

É claro que no processo de retorno à aldeia, em que o trabalho nas fazendas perde valor social, as possibilidades econômicas internas têm sua importância, seja em trabalhos tradicionais (como as roças), sejam em projetos alternativos (como na criação de abelhas). Tampouco podemos negar a participação dos salários de professores, agentes de saúde e aposentadorias. Porém, a consolidação de qualquer atividade produtiva, bem como o restabelecimento do equilíbrio econômico de uma população está muito mais relacionada à reestruturação do universo social do que da disponibilidade de alternativas econômicas ou de geração de renda. Estudos estáticos que revelem apenas as carências econômicas sobre o ponto de vista ocidental contribuem muito pouco com a construção de propostas eficientes de reestruturação da economia de populações tradicionais. Um projeto consistente de apoio a reafirmação de identidade e fortalecimento da auto estima pode ser, por si só, muito mais eficaz. O ideal parece ser a combinação de ações de afirmação cultural com a busca do fortalecimento da economia interna e a instrumentalização das relações econômicas externas mais como forma de relação social que como pura estratégia econômica. Nesta perspectiva os projetos de apoio as relações econômicas com agentes externos deveriam priorizar a articulação com agentes político e socialmente importantes, como outros povos indígenas, população envolvente e grupos que possam ter contribuir nas lutas pelos direitos destes povos em vez de priorizar a geração de renda.


Obs.: Este texto foi escrito como resumo de artigo de mesmo título escrito por Adu & Maiká Schwade para compor uma publicação da Universidade Federal do Amazonas que trata da temática indígena e tem como base as conclusões de pesquisa realizada para elaboração de monigrafia apresentada no curso de especialização em indigenismos da Universidade Positivo em parceiria com a ONG Operação Amazônia Nativa - OPAN, por Maurício Adu Schwade.


Maurício Adu Schwade
Casa da Cultura do Urubuí, 13 de setembro de 2011.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

DOROTI, A DOCE RADICAL

Vida e História de Doroti Schwade - Texto 12


José Ribamar Bessa Freire
05/12/2010 - Diário do Amazonas


Quando eu a conheci, no final dos anos 70, em Manaus, ela já era uma militante das causas impossíveis e das sonhadas utopias. Foi num evento organizado pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), na Casa Jordão. Estava cercada de índios de diversas etnias, com quem assinara um pacto de sangue, doando a eles suas energias, sua inteligência e uma vontade danada de viver e de lutar.

De onde é que aquela freirinha tão miudinha tirava tanta força e coragem? Naquela longa e tenebrosa noite, de censura e repressão, de medo e silêncio, eram poucas as vozes que se levantavam em defesa dos índios, das terras invadidas, das culturas sufocadas, das línguas proibidas e dos etnosaberes discriminados. Doroti entrou de cabeça na luta, com aquela radicalidade e aquela fé inabalável que só os profetas costumam ter, na melhor tradição que vem de Bartolomeu de Las Casas. Seu entusiasmo era contagiante.

Nesse processo de luta, encontrou Egídio Schwade, com quem se casou. Dois entusiasmos altamente explosivos, que incendiavam a todos nós que deles nos aproximávamos. Juntou-se a fome com a vontade de comer: Doroti e Egídio. Ficaram tão entrelaçados no compromisso inabalável de luta e de entrega total, que ninguém sabia mais onde é que um começava e onde o outro terminava.

Doroti, a eterna missionária, a doce radical, tinha aquela doçura do mel de abelha que o casal passou a cultivar num pequeno sitio no município de Presidente Figueiredo (AM). Os novos apicultores realizaram uma experiência no meio da capoeira, combinando criação de tambaqui, com criatório de aves e plantação de hortas, árvores frutíferas, mandioca, alface e feijão de corda. E cultivo de flores, é claro. Para as colmeias.

No início da construção do PT, lá estavam os dois. De tempos em tempos, quando nossos caminhos se cruzavam, ela aparecia com mais um filho no colo: Adu, Ajuri, Maiká, Maiá, Luiz. Agora, ela se foi, levada por um AVC traiçoeiro, mas tenho a impressão de que vou encontrá-la em qualquer lugar, ali onde houver alguém brigando por uma boa causa.


 
Obs.: Este texto está postado no site oficial do TAQUI PRA TI, junto com comentários de leitores, muitos dos quais tambem conheceram Doroti: http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=894

domingo, 4 de setembro de 2011

Porque Continuam Ocultos os Assassinos dos Waimiri-Atroari


2000 Waimiri-Atroari desaparecidos durante Ditadura Militar – texto 4

Uma das estratégias do governo, em tempo de Ditadura Militar e de Nova República, para ocultar os assassinos dos Waimiri-Atroari é manter em locais estratégicos pessoas que saibam manter ante a opinião pública a aparência da política que está no poder. Assim Sarney deu continuidade à política indigenista da Ditadura Militar ao nomear Romero Jucá, homem de confiança dos ditadores, mas desconhecido na área indigenista, Presidente da FUNAI. Jucá, por sua vez, nomeou Sebastião Amâncio superintendente do Amazonas e Roraima, segundo cargo em importância na FUNAI. Este era conhecidamente submisso não só à política dos militares na região, mas também aos métodos de violência dos ditadores usados contra os índios Waimiri-Atroari. Quando Sarney passou a reserva desses índios à administração de uma empresa, a Eletronorte (caso único até então na política indigenista brasileira), esta nomeou Jose Porfírio de Carvalho para dar continuidade à política oficial. Sarney, Romero Jucá, Sebastião Amâncio e Carvalho, nenhum deles participou da luta pela transformação política da ditadura para a democracia em suas áreas de atuação.

Durante a maior parte do período da Ditadura Militar, Jose Porfírio de Carvalho ocupou cargos de confiança. Foi subchefe da Coordenação da Amazônia - COAMA, órgão da FUNAI e também superintendente no Acre e delegado regional no Maranhão. E “honrou” os encargos como repressor do indigenismo independente, em especial no Acre, onde reprimiu membros da OPAN - Operação Amazônia Nativa e do CIMI - Conselho Indigenista Missionário, retirando-os à força da aldeia Santo Amaro dos índios Madiha, entre eles Rosa Monteiro, única enfermeira que trabalhava junto a esse povo.

Como subcoordenador da COAMA, órgão da FUNAI durante os anos 70, Carvalho se integrou, no seu estilo, à política dos militares junto aos Waimiri-Atroari. Os militares sempre impediram o acesso de pesquisadores e jornalistas a esses índios para manter o controle absoluto sobre a informação e impedir qualquer crítica aos seus atos. Carvalho colaborou com os militares na época e deu continuidade a esse esquema repressivo e de controle da informação sobre os acontecimentos na região, tanto durante a Ditadura Militar como na nova República, agora como funcionário da Eletronorte, à frente do Programa Waimiri-Atroari. Em seu livro, “Waimiri-Atroari: a história que ainda não foi contada”, escrito quando a Ditadura já estava agonizando, revela documento que comprova o uso de armas de fogo pelo Exército contra os Waimiri-Atroari, mas a opinião pública na época dos acontecimentos não registrou crítica alguma sua contra esse uso da força. Ao contrário, revela em seu livro que após uma reunião entre o delegado regional, “Sr. Francisco Mont’alverne Pires e o chefe da Divisão da Amazônia, Major Saul Carvalho Lopes, quando a sorte dos índios Waimiri-Atroari foi traçada” que “os representantes da FUNAI, que ao assumirem cargos em Manaus passaram a submeter-se às ordens do Exército, através do 2º. Grupamento de Engenharia e Construção – apenas ouviram e anotaram o que o Alto Comando daquela corporação já decidira. Ou seja, que se daria continuidade, a qualquer preço, aos trabalhos de construção da estrada, que haviam sido rapidamente interrompidos após o ataque dos índios ao Posto indígena Alalaú.”

”Entre outras medidas administrativas que foram decididas naquele momento, – continua Carvalho – ficou acertado que, além das medidas de defesa que o pessoal que trabalhava na estrada já havia adotado, seria realizada pelo Exército, dentro da reserva dos Waimiri-Atroari, demonstração de forças bélicas, por meio de rajadas de metralhadoras, explosão de dinamite e de granadas, numa tentativa de amedrontar os índios e evitar que voltassem a interromper o andamento dos trabalhos da estrada.”

Em anexo ao seu livro, Carvalho, publica em primeira mão o texto do ofício Nr. 042/E-2 confidencial, com 13 determinações (no livro Carvalho as trata apenas como recomendações) repressivas a serem usadas pelo Exército contra os índios. Leia uma delas:

“- esse comando, caso haja visitas dos índios, realize pequenas demonstrações de força, mostrando aos mesmos os efeitos de uma rajada de metralhadora, de granadas defensivas e da destruição pelo uso do dinamite”.

O Ofício 042/74 foi apenas a oficialização do que já era prática desde o início da construção da rodovia. “Pois muito antes da realização da reunião entre o 2º GEC e a FUNAI, no KM 220 da rodovia Manaus-Caracaraí-Boa Vista, - prossegue Carvalho - já o sr. Comandante nos fez ciente de que mandara para as frentes de trabalho da estrada brigadas de soldados do Exército armados, prontos para defenderem a qualquer custo, a continuidade dos serviços de desmatamento e terraplenagem da estrada’”. “A independência com que agíamos com relação às nossas decisões foi substituída pela política de que tudo deveria ser levado ao conhecimento do 2º Grupamento de Engenharia e Construção, para estudo e aprovação. A modificação foi tal e a dependência junto ao Exército chegou a tal nível, que foi firmado um acordo que os funcionários da FUNAI, que prestassem serviços na Frente de Atração Waimiri-Atroari, receberiam uma complementação salarial do próprio 2º GEC”. (Seria um suborno para silenciá-los?) “Até as normas que são exigidas normalmente para qualquer penetração em área indígena, como exame médico, vacina etc. se tornaram coisa secundária diante da ordem do Exército”. “Houve praticamente uma intervenção do 2º GEC na direção da FUNAI, em Manaus, principalmente nos trabalhos realizados pela Frente de Atração Waimiri-Atroari”.

Ninguém pode supor ingenuamente que o subcoordenador da COAMA, importante órgão da FUNAI e que estava presente na área, inclusive ajudou a recolher os corpos de companheiros mortos pelos índios, não tenha tido conhecimento do conteúdo dessas determinações. Com certeza Carvalho não precisou procurá-la nos arquivos secretos do Exército ou da FUNAI. Por que a escondeu da imprensa naquela época e só as começou a revelar quando a Ditadura agonizava e quando um novo momento político se anunciava por toda a nação e quando já era tarde para tomar qualquer providencia de proteção aos índios contra a “declaração de guerra”, da FUNAI e do Exército. A tardia posição crítica de Carvalho soa apenas como satisfação aos seus novos superiores e como justificativa do seu “inoportuno” silencio frente à sociedade. Na época a opinião pública não registrou nenhum repúdio de Carvalho à atitude dos militares e do Delegado da FUNAI, ao contrário, silenciou e em seu livro omite o posicionamento de seu amigo pessoal, Sebastião Amâncio, nomeado para substituir Gilberto Pinto, morto pelos índios o qual em entrevista de 5 de janeiro de 1975 ao jornal o Globo, assumiu que como novo coordenador dos trabalhos da FUNAI da Frente de Atração Waimiri-Atroari, aplicaria a política repressiva determinada em reunião FUNAI-Exército, realizada no dia 20 de novembro de 1974 no Km 220 da BR-174. Afirma Amâncio naquela entrevista, um mês e meio após a reunião que produziu o Ofício 042/E-2, revelado em mão por Carvalho: “Os Waimiri-Atroari precisam de uma lição: aprender que fizeram uma coisa errada. Vou usar mão de ferro contra eles. Os chefes serão punidos e, se possível, deportados para bem longe de suas terras e gente. Assim, aprenderão que não é certo massacrar civilizados (...) Irei com uma patrulha do Exército até uma aldeia dos índios e lá, em frente a todos, darei uma bela demonstração de nosso poderio. Despejaremos rajadas de metralhadoras nas árvores, explodiremos granadas e faremos muito barulho, sem ferir ninguém, até que os Waimiri-Atroari se convençam de que nós temos mais força do que eles”.

Em sua entrevista ao jornal “O Globo”, Amâncio declarou ainda que iria “deter alguns índios (Waimiri-Atroari) e mantê-los numa “fortaleza”, “numa espécie de prisão”, não só como punição mas também para fazer-lhes pregações que os levem a ter medo dos brancos”. Amâncio disse ainda que ele e outros agentes estavam cansados da “guerra sem armas” da FUNAI. E que a tradicional estratégia de pacificação do órgão havia fracassado. Chegara a hora de usar meios mais diretos, tais como dinamite, granadas, gás lacrimogêneo e rajadas de metralhadora para dar aos índios “uma demonstração de força de nossa civilização”.

Deixar mais presentes para os Waimiri-Atroari, segundo Amâncio, apenas daria a idéia de que eles estavam sendo recompensados pelos ataques e massacres dos últimos anos. Amâncio planejava construir uma fortaleza no Posto Indígena Abonari. Essa fortaleza teria uma só entrada, com uma escada que seria erguida em caso de ataque. A fortaleza abrigaria um arsenal de dinamite, foguetes, bombas de gás lacrimogenio e granadas. Essa demonstração de força, dizia ele, expulsaria os índios de seus esconderijos e abriria caminho para a construção da estrada. Amâncio vinha do Rio Javari, com experiência no uso desse tipo de estratégia, pois ali construiu fortaleza semelhante para se proteger dos índios. Em seu livro Carvalho omite conscientemente esse fato.

O plano de Amâncio chocou a opinião pública e muitos apelaram ao presidente da FUNAI para que abrisse o jogo sobre qual seria a política oficial na estrada Manaus-Boa Vista. O general Ismarth, presidente da FUNAI, e o seu ponta-de-lança no Amazonas, delegado regional Francisco Mont’Alverne, aparentavam surpresa ante as declarações de Amâncio, mesmo tendo o delegado regional participado da reunião que concluiu com o Of. 042/74.

Por pressão da opinião pública Amâncio foi afastado do cargo pela Ditadura Militar, mas não da FUNAI. Na Nova República, durante o Governo Sarney, passou a ocupar o segundo posto mais importante, ou seja, de Superintendente da FUNAI no Amazonas, onde, em pleno novo regime, se distinguiu pela aplicação dos métodos repressivos dos militares ao indigenismo independente e à presença de jornalistas na área.

O plano do seu substituto na Frente de Atração Waimiri-Atroari, Apoena Meirelles, não divergia muito de seu antecessor. Meirelles organizou uma expedição de 80 membros para contatar os índios. Cinqüenta homens serviram como guardas. Os outros 30, chefiados por ele, colocavam presentes em frente às aldeias Waimiri-Atroari, tentando assim reconquistar a confiança dos índios. A construção da estrada, no entanto, continuou. Mas Apoena foi mais sincero para com a opinião pública. Sem revelar fatos, admitiu que foi usada a violência contra os Waimiri-Atroari. “Em todos os conflitos houve baixas de ambos os lados”, - afirmou. “Em Brasília (...) todos pediam que eu tivesse cuidado com os traiçoeiros Waimiri-Atroari. Mas a estória é outra, e chegamos mesmo a mentir à opinião pública nacional, não contando a verdade dos fatos que levam esses índios a trucidar as expedições pacificadoras. (....) é a estrada que corta a sua reserva, proliferando o ódio e a sede de vingança contra o branco invasor, foram os assassinatos praticados pelos funcionários da FUNAI durante os dois últimos conflitos.”(...) “Os Waimiri-Atroari tombaram no silêncio da mata e foram sutilmente enterrados e esquecidos no espaço e no tempo. Hoje em dia vamos em missão de paz, de amizade com os índios, mas na verdade estamos é trabalhando como pontas de lança das grandes empresas e dos grupos econômicos que vão se instalar na área. Para o índio fica difícil acreditar em missão de paz se atrás de você vem um potencial de destruição ecológica.” – Apoena Meirelles chefe da Frente de Atração Waimiri-Atroari, ao Jornal Opinião, Rio de Janeiro, 17-01-75.

Sarney, Romero Jucá e José Porfírio de Carvalho continuam ocupando postos de chave no Governo. Sarney como Presidente do Senado, Romero Jucá como líder do Governo no Senado e Carvalho como coordenador do Programa Waimiri-Atroari. O que podemos esperar de uma investigação sobre os acontecimentos que resultaram na morte de mais de 2000 Waimiri-Atroari durante a Ditadura Militar?


Egydio Schwade
Casa da Cultura do Urubuí/Pres. Figueiredo/Amazonas, 4 de setembro de 2011

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Seu Dedé


José Sotero de Lima, o seu Dedé, foi uma das primeiras pessoas que se estabeleceu com sua família próximo ao Rio Urubuí depois da construção da BR – 174, onde passado algum tempo de sua chegada foi criado o município de Presidente Figueiredo. Ele se tornou uma referência importante para os que aqui foram se fixando nos anos seguintes. Neste momento em que Dedé deixa este mundo quero compartilhar algumas lembranças que trago desde a infância.

Nos inícios dos anos 1980 começou a surgir um embrião de povoado onde hoje está localizada a cidade de presidente Figueiredo. Para quem chegava aqui e se deparava com esse pequenino embrião de povoamento logo ouvia falar do Seu Dedé. Se no primeiro dia não ouvisse, certamente na manhã seguinte ouviria, assim que chegasse à mesa o pão do seu Dedé, da padaria Baliza. Naquela época a vida podia parecer dura, e era. Mas os poucos morador iam encontrando formas de fazer as coisas ficarem no mínimo mais engraçadas; iam criando motivos para rir. O nome da padaria é um destes exemplos. Desde o início ele não deve ter sido ocasional. Para quem fala rápido ele forma um trocadilho de humor erótico. E a turma se divertia oferecendo o pão-baliza para o chegante. Assim seu Dedé era, mesmo que sem tomar parte pessoalmente, parte da apresentação ao forasteiro daquele mundo de durezas, mas de pessoas que procuravam ser alegres. Aquele que chega tinha que encarar o pão-baliza!

A criançada que andava descalça correndo na poeira da estrada ia em manada até o sitio do se Dedé colhendo maracujá-do-mato e buchuchu na beira da estrada. E quando se ouvia um carro, que não era algo muito freqüente, a referência era seu Dedé: “Será que já chegou no seu Dedé?” E nas noites, no clarear do céu pelos faróis quando o carro subia as ladeiras: “Agora está na ladeira do seu Dedé!”

Grande parte da vila era parente ou aderente à família de seu Dedé. Entre a criançada, metade falava seu Dedé, metade vô Dedé.

E logo vinha o tucumã do seu Dedé. Na época do tucumã todos os dias comíamos o tucumã do seu Dedé. Quando iniciamos a criação de abelhas, foi na fazendinha do seu Dedé que recolhemos o primeiro enxame.

Certamente seu Dedé está e sempre estará vivo na memória de todos aqueles que iniciaram a construção desta cidade. Descanse em paz seu Dedé, que sua memória estará viva!!!


Maurício Adu Schwade
Casa da Cultura do Urubuí, 01 de setembro de 2011