2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos Durante a Ditadura Militar

Que vivam os Povos Indígenas do Brasil! Que vivam Bem!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Assim Você Me Mata

Queridos amigos de Presidente Figueiredo a cerca de três anos a população desta cidade vem passando por um problema ambiental e de saúde pública. Todas as manhãs os carros coletores de lixo de uma empresa a serviço da prefeitura percorrem a cidade recolhendo o lixo das residências e do hospital, e ao passarem pela cidade, especialmente nas esquinas e locais onde os mesmos sobem ladeiras, deixam para trás um rastro de churume espalhando um terrível mau cheiro por toda a cidade.
Por morar em uma área de grande circulação destes veículos, minha família vem constantemente sofrendo com este problema, além disto, chega a ser vergonhoso para nós recebermos amigos e turistas em nossa casa, em meio a esta fedentina. Cansados de contatar a prefeitura e a secretaria de meio ambiente sobre este assunto, resolvemos tornar pública a nossa indignação com esta asquerosa empresa de coleta, aproveitando também para fazer um alerta ‘a população, pois todos sabem muito bem quem são os proprietários da mesma e de suas pretensões políticas.
Ora, como pode alguém tão irresponsável e tão incompetente administrador de empresa ter a pretensão de governar o município inteiro? Quem garante que no comando de toda a cidade este desrespeito não vai se agravar? Quem garante que tal incompetência não se repetirá por mais uma gestão inteira?


Casa da Cultura do Urubuí, 29 de fevereiro de 2012.


Luiz Augusto Schwade

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Y-Juca-Pirama*

Contexto - A Distribuição  
“Egydio tome aí, o Moura acaba de ser preso!” – sem sair do ônibus, voltei ao meu assento no ônibus Brasília - São Paulo. Foi na rodoviária de Goiânia, em inícios de 1974. Antônio Moura foi quem controlava a “central” de distribuição do Y-Juca-Pirama em Goiânia. Poucos além de D.Tomás e Moura sabiam sequer onde o documento fora impresso.

Antes de sair de Brasília eu telefonara para o Moura solicitando dois pacotes de “material escolar” (era a senha do Y-Juca-Pirama). Eu me dirigia ao Sul do Brasil e na rodoviária de Goiânia Moura me entregaria o pacote. O ônibus Brasília - São Paulo fazia ali uma parada para embarque de passageiros.
Naquele dia, enquanto Moura e Júlia, uma destemida agente de pastoral da Diocese de Goiás, esperavam a chegada do ônibus proveniente de Brasília, Moura recebeu voz de prisão. Com grande presença de espírito, no que sempre foi um mestre, passou discretamente o pacote do Y-Juca-Pirama, para as mãos de Júlia, como quem livra as mãos, para erguê-las em sinal de rendição. Com a mesma discrição Júlia os recebeu e foi esperar a chegada do ônibus em outro local da plataforma.
Naquele dia só entrou um novo passageiro no ônibus e este foi-se sentar justo no assento atrás de mim. Inútil dizer que durante aquela noite não dormi um instante sequer porque o passageiro nas minhas costas, provável inocente, me “controlava” a noite toda.
Em São Paulo dirigi-me imediatamente ao apartamento da mãe de Antônio Moura para lhe dar mais uma vez a dolorosa notícia da prisão de seu filho, pois Moura já sofrera alguns anos de prisão, quando foi agente de pastoral da Prelazia de S. Félix do Araguaia.

A Redação
“O Y-Juca-Pirama, o Índio, aquele que deve Morrer” foi elaborado no sítio de Frei Mateus, no interior do município de Abadiânia. Autores: Pe. Antonio Iasi, sj., D.Tomás Balduino, op., Pe. Ivo Polleto, D.Pedro Casaldáliga, Frei Eliseu Lopes, op., e eu, que não consto na relação dos assinantes. Muitos stranharam a minha ausência nos assinantes, sendo eu, então, secretário executivo do CIMI e um dos autores do documento. A omissão se deveu a uma recomendação de D. Pedro Casaldáliga que argumentava que o recém-criado Secretariado do CIMI correria risco de sofrer falta de continuidade, ou no mínimo, teria a sua liberdade de ação cerceada, em caso de repressão.
Estávamos vivendo um clima de perseguição. E todo o cuidado era pouco. No final do encontro de redação fui encarregado de conseguir mais assinaturas, fora daqueles que já haviam dado seu aval, antes mesmo da redação definitiva do documento. As coisas não eram nada fáceis. Mil e um conselhos, recomendações me acompanharam, quando, após o encontro do interior de Abadiânia, saí em viagem, rumo Sul, na busca de novas assinaturas. “Com o bispo tal não adianta conversar sobre o assunto, nem com aquele outro, porque não vão assinar mesmo. Procura aquele e mais aquele outro”...

A Epopéia das Assinaturas e Reações
Dirigi-me quase direto para Palmas/PR, onde me encontraria com o Pe.Natalicio Weschenfelder,( falecido recentemente) um assinante certo. Mas o primeiro imprevisto foi que o Pe. Natalício não estava em casa. Quem me recebeu foi o Pe. Leonildo Brustolin. coloquei-o ao par do assunto, mostrando-lhe cópia do documento. Ele nem completou a leitura e já colocou sua assinatura, recomendando-me mostrar também o documento para o bispo D.Agostinho J. Sartori. Embora ele era um daqueles que com certeza não assinaria o documento, não tive mais como fugir de mostrar-lhe o documento, pois não tinha suficiente intimidade com o Pe. Leonildo para lhe dar explicações sobre o que me fora recomendado. Era um domingo de manhã. O bispo me recebeu e apresentei-lhe o documento, pedindo a sua assinatura. Recebeu-o e sumiu para o seu quarto sem comentários. Só me chamou no final da tarde. Vermelho e bastante tenso, me devolveu o documento e disse: “Li tudo com atenção! É isto mesmo! Pode colocar a minha assinatura!”
Parti feliz no rumo de Erechim. Depois da agradável experiência de Palmas, ao passar por Chapecó, tive vontade de parar também para mostrar o documento a D.José. Mas acabei não arriscando, cedendo às recomendações. Se o tivesse feito, com certeza teria tido mais sucesso do que em Erechim, onde acabei encontrando total rejeição à assinatura do documento, apesar das recomendações positivas.
D.José, bispo da Diocese de Chapecó e futuro Presidente do CIMI, até então, sempre bastante alheio à questão indígena, acabou, alguns anos depois transformando-se em um dos mais fortes aliados da causa indígena.
Menos de meio ano antes do Y-Juca-Pirama, saiu o documento: “Ouvi os clamores do meu Povo”, da Igreja do Nordeste e em conseqüência foi invadido o Juvenato Dom Vital, onde funcionavam o Secretaridado Regional Nordeste-II da CNBB, a Cúria Arquidiocesana de Recife-Olinda, Conferência dos Religiosos e o Secretariado de Pastoral da Arquidiocese. Todos que estavam trabalhando ali ficaram detidos, inclusive D.José Lamartine Soares, Bispo Auxiliar da Arquidiocese. Os telefones foram interceptados, ficando impedidas a entrada e saída de quem quer que se aproximasse. Arrombaram a mecanografia. Tudo para apreender o Manifesto dos Bispos e Religiosos do Nordeste.
Naquele período até os de casa temiam a gente, quando não tomavam atitudes de repreensão ou até de agressão.
Assim o cônego Afonso, responsável pela representação da CNBB em Brasília (a sede ainda funcionava no Rio de Janeiro), reprovava abertamente os documentos da Igreja de S.Félix: “Uma Igreja em Conflito com o Latifúndio e a Marginalização Social” e o documento dos Bispos do Nordeste, “Ouvi os Clamores do Meu povo”, como principalmente os padres e bispos que mais se evidenciavam atrás destes documentos, como D. Helder Câmara, D.Pedro Casaldáliga e o Pe. Gentel. Como a sede do CIMI, funcionava então na representação da CNBB em Brasília, as nossas relações se azedaram logo. Poucas semanas depois me expulsou daquela residência aos gritos e empurrões.

Pelos Caminhos do Brasil Continente
Como D. Tomás, Pe. Iasi e eu viajávamos muito pelo interior do País, a distribuição do documento pelas paróquias e comunidades se deu de forma muito rápida e ágil. Para se ter uma idéia eis as minhas andanças durante o meio ano que se seguiu ao lançamento do Y-Juca-Pirama, 25 de dezembro de 1973: Rio de Janeiro, Magé, Petrópolis, São Paulo, Campinas, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Brasília, Goiânia, Anápolis, Gurupi, Miranorte, Colinas de Goiás, Miracema do Norte(Palmas), Tocantínia, Araguaína, Tocantinópolis. Carolina, Grajaú, Barra do Corda, São Luís, Belém, Altamira, Santarém, Alenquer, Óbidos, Juruti, Parintins, Urucará, São Sebastião do Uatumã, Itapiranga/Am, Itacoatiara, Manaus, Letícia, Tabatinga, Benjamim Constant, São Paulo de Olivença, Porto Velho, Guajará-Mirim, Gi-Paraná,(Vila de Rondõnia), Vilhena, Cuiabá, Diamantino, Alto Paraguai, Afonso, Nortelândia, Rondonópolis.
Mas de fundamental importância para toda a ação de CIMI naqueles diasfoi a atitude tranquila e firme do Secretário Geral do órgão, D.Ivo Lorscheiter, que valendo-se de sua autoridade de Secretário Executivo da CNBB, não se ateve apenas a um apôio total, como deu-nos sugestões de grande clarividência, como a que incentivava o CIMI a permanecer apenas um órgão oficioso da CNBB, para que pudesse agir com mais arrojo dentro de uma Igreja dividida em tantas linhas contraditórias, frente à pastoral indígenista. No caso da expulsão da casa da CNBB, foi ele pessoalmente que me acompanhou, menos de uma semana depois para dentro do prédio do órgão.
Por outro lado, destoava por vezes, a atitude de companheiros como a do colega jesuíta da Universidade Católica de Goiania que não aceitou que eu me reunisse nas dependências da Universidade com os bispos D.Tomás Balduíno e D. Pedro Casaldáliga, temendo represálias da polícia federal. E me dizia textualmente: “Porque ou trabalhamos na Universidade e nos sujeitamos às exigências que nos impõem para continuar recebendo verbas, ou frustramos tudo e entramos na linha de D.Tomás, uma linha de engajamento social.”
Em outra oportunidade, quando, após uma reunião do CIMI em Goiãnia, acompanhado de D.Tomás e D.Pedro, quando fiz uma visita ao Reitor da mesma Universidade, este me repreendeu, alegando que a visita destes dois bispos “subversivos” comprometeria as relações da Universidade com o Governo.
De fato, poucos meses depois, o Provincial nos negou um quarto, em Brasília, já concedido pelo superior da casa, para instalarmos provisoriamente a sede do CIMI. A distribuição do Y-Juca-Pirama, foi feita com muita eficiência e rapidez, graças, principalmente, à corajosas equipes de leigos, tendo quase sempre ao eu lado ou à sua frente algum padre determinado a apoiar a causa indígena. Destacaram-se assim as equipes de Goiânia e Campinas, em torno das paróquias dos PP Claretianos. Os leigos da OPAN em torno da sua sede em Cuiabá. A equipe de leigos e padres da Prelazia de S.Félix do Araguaia e da Diocese de Goiás. Mas seria cansativo citar todos os grupos e pessoas que em particular, se destacaram no mutirão da divulgação deste documento.


Casa da Cultura do Urubuí/Presidente Figueiredo/Amazonas, 14 de fevereiro de 2012.


Egydio Schwade

*Acesse o Documento pelo Link: Y-JUCA-PIRAMA 

sábado, 18 de fevereiro de 2012

RORAIMA INDIGENA – 1976 (Parte 5)*

Estorvo do Progresso

Outra constante no relacionamento branco-índio foi a do índio ter sido considerado “empecilho ao progresso do branco”. A história mais marcada neste sentido tem sido a dos Waimiri-Atroari.
O progresso para o branco coincide com o progresso do capitalismo, com a construção das ruas e edifícios Boa Vista, com a construção de pontes e estradas, com a construção de ginásios e de palácios oficiais, com a construção de aeroportos e rádios. Tudo o mais, quando não explicitamente, pelo menos implicitamente, é atraso.
Assim escreve o branco de Roraima: “Os povos, tal qual um indivíduo isolado, têm as sua infância e maturidade. Sabemos que em pontos mais afastados como na região do alto Catrimani, ainda existem silvícolas vivendo a idade da pedra, porem, nos meios civilizados, devido à condição de Território Federal, ligado diretamente ao poder central da República, o comportamento do nosso povo alcança posição de destaque no setor educacional”(ReR,pg.37).
O “civilizado” capitalista tem a arte de se enganar a si mesmo. O povo de Roraima de hoje, particularmente o índio, é uma vítima destas mentiras públicas. Enquanto o povo das cidades e vilas raras vezes come carne e as malocas dos indios foram totalmente privadas das proteínas, que era a tradicional base da alimentação do índio, o governo de Roraima propala o seguinte: “Nesta faceta do desenvolvimento (isto é, da produção de gado), as terras amazônicas têm auto-suficiência. O mundo está com fome de carne e a Europa não pode mais produzi-la por falta de espaço. Chegou a vez do Brasil.”

A Educação do Branco, um Pretexto

A educação e o progresso que o branco ofereceu ao índio em Roraima tem sido, ao longo de sua história de contato, um pretexto para invadi-lo: invadir a sua terra, que é a sua vida. Através da invasão sem dialogo das terras, também a invasão da sua vida imaterial: a cultura.
Nunes Pereira nos dá, a propósito, algumas pinceladas mais realistas da história do índio roraimense: “Acompanhado pelo Tuxaua Makuxi, Ildefonso, tivemos quem nos mostrasse os antigos sítios e núcleos demográficos onde a indiada havia vivido, tempos imemoriais, com seus usos e costumes, suas técnicas de trabalho, suas etiquetas, superstições, lendas e estórias.
Andamos muitas vezes nos rastros de Koch Grunberg e paramos nas malocas onde os moradores ainda se lembram dele. Numa delas se reuniram, então, na casa redonda, mais de duas centenas de homens, mulheres e crianças. E, em volta dessa construção sólida e acolhedora, visitamos casas para famílias isoladas, que abrigavam de 15 a 20 indivíduos de ambos os sexos.
Já então deparamos com outras malocas em ruína e encontramos inúmeros indios que evitavam a aproximação dos civilizados, à vista do procedimento destes, agressivos e imorais, ora empregando armas e castigos para amedrontar e dominar, ora invadindo-lhes as festas tradicionais, distribuindo entre eles bebidas alcoólicas, principalmente a cachaça. A pretexto de ensinar-lhes prendas domesticas, mocinhas indígenas eram levadas a servir como amas e criadas, nas casas dos fazendeiros e comerciantes e até das autoridades locais e de lá nunca mais voltam às malocas de onde vieram”. (citado em ReR. Pg.46).

Sobretudo um Homem livre

O indio roramense, como todo o indio americano, na sua vida nativa é e era, sobretudo, um homem livre. Até os historiadores mais entusiastas do branco invasor reconhecem isto.
“E todas estas terras de Roraima pertenciam a numerosas tribos indígenas”(ReR,41). Através do constante reconhecimento deste fato, em sua história, o branco se auto-condena.
Lê-se frequentemente o depoimento de que o índio roraimense, em verdade, é um homem pacifico. Assim, Koch Grunberg: “São afáveis, de índole serena e maneiras delicadas. Os viajantes que com eles tratavam ou os tinham como guia numa viagem, louvam-lhes o caráter, a conduta decente para com as crianças e para com os estrangeiros, podendo mesmo ‘selvagens nus’ servirem até de modelo. Nunca um índio entrava na casa de um estranho sem anunciar-se e sem pedir licença. Esperando fora ate que o dono da casa o convidasse a entrar”. (citado em ReR, 43).
O Homem do Campo Não-Índio O homem do campo roraimense segue a mesma “via crucis” do índio. “A coletividade roraimense, insulada e rarefeita, enfrenta, estoicamente, o mais elevado custo de vida de todo o País, pagando elevado tributo por um único privilégio: o de ser brasileira.” (Do discurso de saudação do ex-Governador Dilermando Cunha Rocha ao Presidente Castelo Branco). A terra está caindo mais e mais nas mãos do latifúndio, forçando as concentrações de pequenos agricultores, geralmente formadas de nordestinos a se mudarem para a cidade de Boa Vista e Caracarí.

*Quarta parte do relatório que fiz, em 1976, sobre a situaçao indígena em Roraima.
Veja o restante do relatório: Primeira, Segunda, Terceira, Quarta. Link

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

FUNAI Sabia da Crueldade dos Militares: consciências abafadas e reprimidas

2000 Waimiri-Atroari Desaparecidos Durante a Ditadura Militar – Texto 5

Durante a construção da BR-174, todas as pessoas da FUNAI que tiveram alguma autoridade e atuação nesta região, sabiam da crueldade dos militares contra os índios Waimiri-Atroari. Quando não integraram diretamente a ação dos militares, se omitiram. Alguns participaram de reuniões com os militares, onde foi decidido o uso de violência e até de armas de fogo para reprimir os índios. Outros tiveram em mãos documentos oficiais elaborados de comum acordo entre a FUNAI e o Exército, que determinavam a repressão violenta contra os Waimiri-Atroari e os mantiveram sob sigilo até que a resistência dos índios estava aniquilada. Além de esconderem da opinião pública esses documentos ajudaram a manter os jornalistas, os pesquisadores e o movimento popular, principalmente o CIMI que denunciavam as atrocidades do governo, distantes dos acontecimentos.

Os funcionários que tentaram abrir o jogo, como Apoena Meirelles, não permaneceram por muito tempo no cargo. Depois que deu entrevista ao Jornal Opinião do Rio de Janeiro em 17 de janeiro de 1975, onde afirmou que funcionários da FUNAI tiveram participação ativa na violência contra aquele o povo Waimiri-Atroari, o seu afastamento da área não se fez esperar.

“Em todos os conflitos – afirmou Apoena na entrevista ao Jornal Opinião - houve baixas de ambos os lados. Em Brasília todos pediam que eu tivesse cuidado com os traiçoeiros Waimiri-Atroari. Mas a estória é outra, e chegamos mesmo a mentir à opinião pública nacional, não contando a verdade dos fatos que levam esses índios a trucidar as expedições pacificadoras... é a estrada que corta a sua reserva, proliferando o ódio e a sede de vingança contra o branco invasor, foram os assassinatos praticados pelos funcionários da FUNAI durante os dois últimos conflitos.”

“Os Waimiri-Atroari tombaram no silêncio da mata e foram sutilmente enterrados e esquecidos no espaço e no tempo. Hoje em dia vamos em missão de paz, de amizade com os índios, mas na verdade estamos é trabalhando como pontas de lança das grandes empresas e dos grupos econômicos que vão se instalar na área. Para o índio fica difícil acreditar em missão de paz se atrás de você vem um potencial de destruição ecológica.”

Milton Lloli, outro funcionário da FUNAI que em tempo oportuno ergueu a voz e denunciou: “os índios (Waimiri-Atroari) estão sendo humilhados, feridos em seus princípios tribais, daí a revolta, a ânsia de matar o branco. E a única maneira de vingarem a morte dos seus antepassados e guerreiros é matando o pessoal da FUNAI, que para eles mentem e procuram afastá-los de sua comunidade, de sua tribo.

Os Waimiri-Atroari hoje vivem de forma aleatória e essa situação complicou-se mais ainda devido unicamente aos processos de pacificação impostos pela funai, que não oferece às tribos as mínimas condições de sobrevivência, pelo contrário, está levando-os ao extermínio”. (A Critica” de 4 de março de 1975).

Milton LLoli foi demitido pelas autoridades da FUNAI que temiam “que muitas verdades sobre os seus erros de pacificação dos índios fossem a público, o que comprometeria toda a estrutura do órgão.”.() Não contente em demiti-lo, essas autoridades da FUNAI apresentaram Lloli à opinião pública como “analfabeto” e “débil mental”. No caso Lloli a relação entre os objetivos da FUNAI e os do regime militar eram tão evidentes que a sua demissão foi assinada pelo representante da FUNAI e pelo comandante militar da 1ª Companhia do 6º BEC.

Ângela Baptista, antropóloga da Divisão de Identificação e Delimitação/DGPI/FUNAI, encarregada de fazer o levantamento da área Waimiri-Atroari em 1981, no seu parecer conclusivo pergunta: “como dar ou tirar terra de um grupo indígena se não temos conhecimento de sua realidade sócio-economica, política, cultural, cosmológica... Como justificar uma área se não sabemos que locais os indígenas utilizam para a caça, a pesca, agricultura de subsistência...” Ao final se posicionou contra o plano da Funai de desmembrar a parte Nordeste-Leste da Reserva para a Mineradora Paranapanema. No dia seguinte à entrega de seu relatório foi despedida do órgão.(2)

Num evidente incentivo aos militares para que avaliem melhor o seu comportamento durante a construção da Br-174, o general aposentado, Altino Berthier Brasil, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, chefe de gabinete do ex-secretário do Meio Ambiente, José Lutzenberger, em livro entitulado “O Pajé da Beira da Estrada” e dedicado “ao anônimo irmão Waimiri-Atroari, cujo cadáver mal enterrado deparamos, muitas vezes, pela frente”, escreve:
“Ninguém ignora a importância do fator psicológico dentro do contexto de qualquer contenda... Tanto se falava nos massacres praticados pelos Waimiri-Atroari que mesmo a pessoa pouco identificada com a saga daquele povo dentro da história era persuadida a adotar a ideologia do ódio...
Assim, a opinião pública, devidamente manipulada, aplaudia o avanço da estrada a qualquer preço, apesar dos selvagens. Poucos eram aqueles que vestiam a pele do índio e analisavam o problema com isenção e sabedoria. Era fácil e relevante estar do lado mais forte. Ser índio ou defender sua causa era ignorância – pura subversão. Qualquer crítica ou simples ponderação eram recebidas como execrável falta de patriotismo”. 1

A FUNAI como órgão do governo nunca foi a favor do índio. Nunca lutou pela garantia de suas terras, contra os grandes projetos que o Governo implantava em áreas indígenas. Nunca foi a favor de sua autonomia e nem de sua cultura. Sua política sempre foi integracionista. Toda a vez que o Governo cria um grande projeto na Amazônia em terras indígenas, o índio é visto como “empecilho” e como tal, afastado do caminho. E a FUNAI sempre colaborou nesta ação do Governo. Da BR-174, Mineração Taboca e Hidrelétrica de Balbina em terras Waimiri-Atroari, aos tempos de Belo Monte em terras Kayapó, a atitude dos dirigentes da FUNAI não mudou.

O que a FUNAI, como órgão do Governo fez a favor do índio em toda a sua história, foi feito sob a pressão e o empenho dos próprios índios, animados pela teimosa parceria do movimento popular e de jornalistas que acreditaram na sua causa.

Casa da Cultura do Urubuí, 06 de fevereiro de 2012
Egydio Schwade